Minha retina

Reflexões sobre as imagens que chegam aos meus olhos.

27/3/09

Se não quer ser mal interpretado, não deixe lacunas.

Espaços podem ser preenchidos com qualquer coisa. Se queremos que saibam exatamente as razões pelas quais agimos ou o que estamos pensando, devemos preencher esses espaços antes que a outra pessoa o faça.

Eu ando preenchendo muitas lacunas esses dias e é engraçado, porque pensei que só eu pensasse assim, mas quando a minha frase do MSN apareceu para uma amiga, ela logo falou que se sentia aliviada em saber que alguém concordava com ela. Eu também estava.

A questão é simples. Somos avaliados o tempo todo pelo que falamos e o que fazemos, mas certamente somos muito mais avaliados por aquilo que deixamos de falar ou fazer. Um silêncio pode ser sábio, não falar nunca, pode ser problemático.

Há anos eu me debato com essa questão exatamente por tender a preencher o silêncio dos outros. Sou uma pessoa que acha que conversar é um excelente caminho para se chegar a um lugar. Não sei guardar o que sinto. Se não está na ponta da língua, está explícito no meio da testa. Acho que é por essa razão que não consigo aceitar que as pessoas não falem e deixem margem para interpretação errada o tempo todo.

Pensando bem, porque seria errada? Pode ser que o que não dizem seja exatamente aquilo que acham que jamais será visto, mas que pode se tornar evidente quando o espaço vazio dá lugar para uma idéia qualquer.

Muitas pessoas pensam que calando completamente estão protegendo suas idéias. Nem sempre, elas às vezes (às vezes?) transparecem nas atitudes e são justamente essas atitudes que nos ajudam a preencher os vazios. Muito cuidado com o que faz na tentativa de disfarçar o que pensa.

O que me deixa mais irritada é quando a pessoa quer contestar as conclusões que tiramos das atitudes e do silêncio dela. Se queria ser entendida de primeira, falasse. Esse negócio de tentar remendar depois que já esgarçou é muito cansativo. Chega uma hora que não tem mais como cerzir a paciência do outro e a coisa desanda.

Eu ando azeda, né? Mas agradeço a paciência de vocês (que ainda não está precisando ser cerzida) em agüentar as coisas que ando purgando.

Beijocas e boa semana.

Drikka

criado por dri.mo    23:27 — Arquivado em: Sem categoria

22/3/09

“O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar, não adianta chamá-lo, pois ele só vem quando quer.”

Lendo Memórias de Adriano é impossível não quedar-se fascinado pela prosa envolvente de M.Yourcenar.

Baseando-se em fatos da vida do famoso imperador, viajamos num emaranhado de pensamentos. Refletindo sobre sua condição no final da vida, Adriano nos leva a um mergulho na alma humana através da sua própria alma e entre as muitas questões levantadas estão o amor, o outro, o encontro e, quem sabe, o desencontro.

Estaria mentindo aquele que dissesse que jamais refletiu sobre esses assuntos. Habita em nós um ideal de perfeição do qual ainda estamos léguas distantes.

E falando sobre o amor… para mim, uma das melhores definições sobre ele está nos versos da Habanera da ópera Carmem. O amor, esse pássaro rebelde que tantos fingem desprezar, mas que no fundo, no fundo, todos esperamos um dia encontrar.

A verdade é que a simpatia mútua que une duas pessoas realmente é algo que não se explica e que não se pode controlar. Essa inexplicável atração que leva o ser humano a dar-se sem ter medo de ser conhecido é acima de tudo, um exercício diário de tolerância com as nossas próprias imperfeições. Ao escolhermos abrir nosso interior para abrigarmos o outro, escolhemos parar diante do espelho. Acho que é aí que começam os desencontros.

É muito difícil admitirmos nossas falhas diárias, apesar de sermos seres com arestas e precisarmos apará-las a cada dia para que nos tornemos “suaves” no convívio. De certa forma me parece que construímos uma autoimagem seja por proteção, preguiça ou incapacidade de lutar para melhorar e de acordo com a razão que nos leva a essa persona, conseguiremos ou não, parar diante do espelho.

Eu sei que amar alguém não implica necessariamente em essa pessoa amar você também. Como já disse Bizet “o amor é um pássaro rebelde (…) ele só vem quando quer“, mas um mínimo de consideração (mesmo que não seja isso exatamente o que se espera do ser amado) é desejável.

É bem difícil estabelecer o que seria consideração, pois nem pessoas que recebem a mesma educação são capazes de ter os mesmos critérios. Nesse caso é preciso prestar atenção no outro para saber que itens se aplicam. Cada caso será um caso.

Para uns é tão somente saber que é lembrado, para outros será preciso estar sempre por perto, isso vai depender muito da pessoa, mas o mais importante disso tudo é ter a sensação de que o que de especial dedicamos a alguém, muito embora não tenha trazido o retorno esperado, não ficou de todo perdido.

Acho que é exatamente esse “sentir que algo está perdido” que está mudando minha disposição interior. Eu confesso que tenho me sentido cansada com a interminável busca de algum sinal de que não sou uma peça avulsa.

Durante muito tempo persegui isso. Agora não sei mais se vale a pena.

Minha postura não é bem de desistência, de corte súbito. Apenas não irei mais atrás de nada e qualquer que seja a resposta que o outro se disponha a dar (se algum dia, se dispuser a fazer isso) que ele mesmo dê, caso contrário, eu não vou mais buscá-la.

Como diz uma amiga, amor a gente não deixa de amar, apenas abre espaço para novos afetos. Acredito ser essa minha nova postura (vamos chamar assim) a abertura necessária para um novo espelho.

Parei de chamar. Agora o pássaro, se quiser… que venha!

Beijos e boa semana.

Drikka

PS: Desculpem não estar postando toda semana. A coluna tem derrubado minhas melhores intenções.

criado por dri.mo    22:14 — Arquivado em: Sem categoria

8/3/09

Negócio da China

Muito embora eu ande meio pelas tampas com os orientais (motivos de trabalho), eu não me furto a ver a novela das 18h sempre que o trabalho me permite.

Independente da minha notória “paixão fraterna” por Miguel Falabella, a novela é muito boa. Leve, com bons exemplos, português (não os lusitanos, mas a língua) corretos, como deve ser um bom folhetim. Há muito uma novela não me faz ter vontade de ver novela. Essa, pela pura diversão de bom nível que oferece, me atraiu profundamente.

Eu estou comentando isso, porque tenho lido críticas desfavoráveis, além da infeliz entrevista de Benedito Rui Barbosa há uns dias atrás. Acho sinceramente que as pessoas não estão mais conseguindo discernir entre o que pode ser nocivo à sociedade e o que pode ser útil.

Tive o prazer de conhecer Miguel pessoalmente através de um amigo em comum. É interessante ver que ele consegue ser uma pessoa única, esteja ou não na frente das câmeras. Não existe uma persona para cada momento, talvez por isso ele seja tantas vezes incompreendido.

Nos poucos encontros que tivemos, pude ver nele a pessoa apaixonada pelo trabalho que desenvolve e que é muito seriamente comprometida com os resultados positivos que possam vir para as platéias do país. A coleção de suas obras resgata valores, História e cultura. No mundo de hoje, é mesmo difícil que o senso comum o compreenda.

A novela “Negócio da China” é um exemplo da incompreensão de parte do público. Com citações de grandes autores, com diálogos que respeitam a norma culta da língua e recheados de idéias inteligentes, a novela demonstra que a diversão pode ser educativa. Não estou falando que as pessoas devam considerar a TV seu único veículo educativo, mas uma vez que a telenovela é uma realidade na vida do brasileiro, que ao menos tenha bom nível.

Eu tenho uma enorme preocupação com a falta de amor próprio do nosso povo. É esse o único motivo que vejo para tamanho desprezo por uma cultura tão rica que algumas pessoas, me inclua no grupo, tentam desesperadamente resgatar e manter protegida.

Um ponto a mais para a novela que tem em seu elenco três excelentes atores de Portugal é a integração de culturas diferentes, além de mostrar o talento de outros povos. Eu particularmente gosto de música portuguesa. (Quem vê a novela vai entender.)

Nesse momento me vem à mente uma frase de Ariano Suassuna. Em uma entrevista para um programa de TV, o grande autor e defensor da cultura brasileira, disse que “Não precisamos odiar a cultura dos outros. Precisamos, sim, aprender a amar a nossa cultura”.

Miguel reconhece e ama todas as culturas e principalmente a sua própria. Sabe que cultura, quanto mais, melhor e divide isso com todos através de seu trabalho.

Aos críticos de “Negócio da China”, meu muito obrigado, pois muitas vezes a crítica que tenta diminuir, só ressalta o mérito da obra bem realizada.

criado por dri.mo    22:57 — Arquivado em: Sem categoria

24/2/09

Salgueiro

Desculpem não ter escrito na última semana, mas eu estava completamente sem imaginação. Acho que é aquele cansaço da mesmice que faz essas coisas. Eu preciso ter mais paciência para efetuar as mudanças necessárias, mas reconheço que essa não é a minha virtude. Aliás, nem a modéstia é.

Essa semana vai ser um post curtinho, porque carnaval também não é exatamente uma festa que encha meu espírito de alegria, exceto pelos quatro longos e maravilhosos dias que passo em casa de topzinho e short. Uma “diliça”! Porém, como o meu Salgueiro (Sim!!!) veio deslumbrante este ano, quero comentar a respeito da minha ignorância e preconceito em relação a importância do tambor na história da sociedade.

Eu confesso que há muito não acompanho como fazia antes os assuntos das escolas de samba. Já teve uma época em que quis desenvolver um enredo e tudo, mas foi só, como diria Paulinho da Viola, um rio que passou em minha vida.

Eu estava aqui cosendo e esperando que a escola entrasse (esse ano foi cedo) quando anunciaram o nome. Gente, eu nem acreditei. Uma única e simples palavra: TAMBOR. Pronto! Estava resumida a razão de oito alegorias gigantescas e 4100 componentes.

Acho que minha desconfiança veio do fato dos carnavalescos adorarem nomes complicados e enorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrmes. Nomes que você nem consegue reproduzir e acaba resumindo tudo em uma palavra só. Renato Lage nos poupou o trabalho esse ano.

Eu estou encantada com o resultado final. Pesquisando desde a criação até a utilização do tambor, a escola mostrou um espetáculo deslumbrante na avenida. Destaque para o carro abre-alas com os tambores que davam um efeito visual belíssimo ao rodarem e para o carro em homenagem ao Xangô do Salgueiro (Júlio Machado, falecido ano passado).

Acho que a melhor definição para o carro do Xangô (que era todo branco) deu meu pai ontem. Ele disse que apesar de todo branco o carro era vivo. E era mesmo. Eles colocaram vários brancos no mesmo ambiente. Ficou harmonioso e celestial.

Agora só me resta esperar o resultado do júri. Bem, a gente sabe que as coisas não são bem como queremos ou pensamos, mas… sonhar não custa nada.

Beijo grande. Volto semana que vem! (OPA! Essa semana ainda.)

criado por dri.mo    11:06 — Arquivado em: Sem categoria

8/2/09

Mea culpa

Eu sempre tive por hábito observar gente no atacado, mas depois que comecei a dar aulas, tomei gosto por observar gente no varejo. A sociedade é um grande organismo vivo e cada ser é uma de suas células. (Admitam, essa frase ficou bonita, né?)

O que estou querendo mostrar é que todos, sem exceção, somos responsáveis pelo momento social em que nos encontramos. Uns contribuem de forma positiva e outros não.

Essa idéia me perseguiu essa semana, uma semana de mais balas achadas e vidas perdidas.

Fiquei me perguntando como chegamos a essa situação e por que razão a vida humana está valendo tão pouco e as pessoas parecem ter um desprezo imenso por regras, além de desconhecerem por completo a palavra respeito.

Num loop alucinado do meu pensamento me lembrei de um motorista de taxi que me falou que o problema era a impunidade. Ninguém era punido, ninguém ia para a cadeia e eu concordo com ele até certo ponto. Explico. Não acho que impunidade seja só uma questão da Justiça. É claro que a frouxidão do judiciário é uma das razões (grande até), só que eu acho que a questão da impunidade na nossa sociedade começa bem antes de alguém chegar a um tribunal.

Eu trabalhei durante doze anos com a base da sociedade: crianças e suas famílias. Nesse período, fui capaz de perceber que a noção de que se pode fazer qualquer coisa sem castigo começa já na família. A impunidade que vem depois é mero prolongamento que se torna mais perigoso para a sociedade, pois as infrações se tornam mais graves.

Muita gente me diz que é exagero comparar as situações, mas a criança dentro de seu universo familiar, deve viver um laboratório de conceitos e atitudes que usará no convívio social depois de adulta. A escola é o segundo núcleo importante. Se a família não fez sua parte, a segunda fase do aprendizado social pode se tornar traumática para a criança, os colegas e principalmente o professor.

Recebemos cerca de quarenta crianças por ano em sala de aula e todas (salvo raras e gratificantes exceções) vinham sem saber o que era ouvir não dos pais. Na maioria das vezes faziam o que queriam, desconheciam completamente o cumprimento de regras e não eram responsáveis por seus atos dentro da escola. Quando os pais eram questionados sobre as atitudes absurdas dos filhos (enforcar o colega até quase sufocar, bater nos colegas, roubar objetos, xingar a professora, rasgar as provas na cara do professor, fraudar resultados de provas, assinar pelos pais os avisos da escola, etc. - a lista é imensa.) diziam que eram “somente crianças”, que aquilo era “coisa de criança”. O que se espera do futuro de uma sociedade onde as crianças crescem achando que fazer qualquer coisa é normal?

Eu costumava dizer para os meus alunos que a escola era o emprego deles e que se eles não sabiam ser responsáveis e conviver bem com colegas ali, como fariam no futuro? Era uma loucura! Eles faltavam aulas, matavam provas, não faziam deveres e os pais sempre na hora da entrada ou da saída vinham com uma desculpa esfarrapada para justificar o filho errado. Isso fora a lista que citei acima. De quem era o maior erro?

Eu costumo dizer que o Brasil é um país sem visão de macro. Só conseguimos enxergar as unidades. Essas pessoas não veem que os filhos irão para o futuro despreparados para qualquer situação que os contrarie. Eles realmente achavam que os filhos deveriam ser obedecidos e atendidos por todos. Essas pessoas só esqueceram um detalhe: cada unidade formada para ser única diante dos outros solta na rua juntando com as outras tantas do mesmo jeito, só pode dar em conflito.

Não foram acostumados a ter limite. Há uma hora que, se você foi criado com regras claras, sabe que deve parar. Mostrar o certo e o errado a um filho é imensa obra de caridade. Minha mãe costumava dizer que nosso direito (meu e da minha irmã) terminava onde começava o dos outros. Assim a criança cresce sabendo respeitar quem está perto e que se cometer erros, terá que ser responsável por eles e é na infância sim que se aprende isso. Na adolescência exercitamos e trabalhamos para nos encaixar na sociedade e na idade adulta vivemos para perpetuar esses conceitos.

O que tenho visto da Justiça é tão somente a visão em âmbito ampliado do que vi há tempos atrás com os pais dos meus alunos. Quem sabe não reduziríamos muito as oportunidades da Justiça deixar impunes criminosos, se começássemos a educar nossas crianças e jovens com responsabilidade e respeito? Se você sabe que erro pede reparação, vai pensar duas vezes antes de errar. Ou não?

Meu avô costumava dizer uma frase de Pitágoras: Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens.

Educar requer paciência e bom senso. Além disso, se realmente pretende educar alguém, a primeira pessoa a quem tem que educar é você, pois as palavras são mero som sem o exemplo.

Volto semana que vem.

Um beijo grande a todos,
Drikka

criado por dri.mo    22:43 — Arquivado em: Sem categoria

3/2/09

A garota do adeus

 

Desculpem o post novo só sair hoje. Eu passei mal no final de semana e voltei ao trabalho meio enrolada. Hoje tenho tempo e estou escrevendo.

Como vocês sabem, ninguém pede um chope e duas folhinhas de alface e eu entro de cabeça naquelas delícias suicidas que servem nos bares da cidade. Não foi nada grave, graças a Deus. Eu é que tenho que me conformar que meu organismo é sensível às orgias gastronômicas.

Mas o assunto que queria escrever hoje não é esse e vocês já devem ter notado pelo título.

Eu andei há um tempo atrás meio estranha, meio surtada sem saber bem o que estava acontecendo. Humor instável (aquele tipo de humor que faz a gente ouvir aquela piadinha machista e nojenta que é falta de namorado) e calada (o que absolutamente não é normal em mim), eu estava realmente triste e não sabia bem porque razão.

Mas como não me conformo que coisas aconteçam dentro de mim e eu não saiba explicar, fui buscar uma razão. Achei uma delas.

Há umas duas semanas uma amiga de 20 anos se mudou. Fiquei super feliz, pois ela há muito tempo vinha batalhando para comprar o cantinho dela e conseguiu. Só que a ida para tão longe (Niterói) remexeu uma referência afetiva da infância que estava guardada, mas não esquecida.

Quando eu tinha uns 9 anos, minha melhor amiga se mudou. Companheira de brincadeiras, conversas e travessuras, ela foi morar no Méier. A distância entre o Méier e a Vila da Penha parecia instransponível, pois longe de criança é relativo e naquela época, pelo menos para mim, o Méier era quase uma viagem à Austrália.

Levei muito, mas muito tempo mesmo para me ajustar. A família toda (avó, avô) foi junto e ficamos realmente sem ter o mesmo contato. Em princípio nos ligávamos, mas a vida vai ganhando novo ritmo e acabamos por nos afastar.

Desse tempo guardei a sensação de tristeza. Não que eu estivesse só, tinha outros amigos, tinha (como tenho até hoje) minha família, mas a lacuna ficou. Tanto ficou que ao me encontrar em situação similar, a memória reconheceu e a tristeza voltou.

Nunca desisti de saber por onde ela andava e agradeço ao Orkut, pois consegui reencontrá-la. Casada, com dois filhos lindos, voltamos a ter contato. Descobri que para ela a lacuna também ficou.

Sei que meus fiéis leitores (pretensão) preferiam um post divertido, mas ainda estou em convalescença e de dieta, o que altera meu humor. Eu gosto de salada, mas comer um arbusto todo dia, eu não agüento. Tenho que variar. Além disso, queria dividir essa lembrança com vocês.

Prometo que assim que a dieta acabar, eu tomo um chope e melhoro.

Beijocas e até a próxima semana.

Drikka

criado por dri.mo    22:20 — Arquivado em: Sem categoria

24/1/09

Vivendo pelo avesso

Ontem passei na porta do Espaço (ex-espaço) Unibanco de Cinema e vi o cartaz de um filme. RUMBA é o nome da produção (http://www.interfilmes.com/filme_20826_Rumba-(Rumba).html). Por algum motivo que não sei explicar (talvez o colorido agradável do cartaz ou a posição das pessoas na foto) sei que parei e vi que era uma comédia e o assunto me fez lembrar há quanto tempo não entro naquele cinema e tive vontade de ver a fita.

Como não tinha tempo para parar e entrar, segui em frente, mas me ocorreu um pensamento. Por que perdemos tanto tempo com tolas comédias americanas e não assistimos nenhuma comédia de outros países?

Muito embora não tenha obtido a resposta para o meu questionamento, lembrei-me, caminhando tortuosamente pelos meus pensamentos, de um comentário sobre Pedro Almodóvar e seus filmes.

Certa vez, conversando com um grupo de amigos sobre o cineasta espanhol, um deles comentou que não gostava dos filmes dele, pois pareciam sempre muito absurdos.

Realmente, se levarmos ao pé da letra o que passa no filme, tudo soará muito absurdo. Porém, se isolarmos as personagens, veremos retratos precisos do ser humano em sua forma mais crua: a imperfeição.

Eu comparo a reação de algumas pessoas a determinadas obras de arte (nesse caso, os filmes de Almodóvar) à reação que os animais tem diante do espelho. Eles se veem, mas por não saberem ser daquela forma, não se reconhecem e atacam.

O que Almodóvar reúne na tela é tão simplesmente um mosaico de ações, reações e emoções humanas, das quais nos achamos imunes, mas que na verdade, se não praticamos, nos sabemos perfeitamente capazes de fazê-lo. Só que não gostamos de admitir. Talvez, não nos querermos ver seja o maior motivo da rejeição.

Para mim, ele constrói uma grande metáfora da existência humana, esse é o verdadeiro espetáculo. As personagens parecem pessoas vistas pelo avesso, pela parte de dentro, aquela que tanto desejamos ocultar. Uma face de loucura, outra de paixão, sentimentalismo, tolice e revolta ou razão, faces que montam o poliedro humano.

É impossível não sentir-se estranho diante da grande tela, quando vemos projetados em uma cena aparentemente simples essas várias faces às vezes ao mesmo tempo, mas é exatamente esse estranhamento que atrai para a obra do cineasta. É preciso um olhar investigador mais atento para perceber as sutilezas e não sutilezas da alma retratadas de forma dinâmica. O movimento das pessoas na tela pode ser enganador. A primeira vista parecem “pessoas normais”, mas quando chegamos mais perto “nada é normal”, pois de perto nem nós mesmos somos normais.

É por isso que gente é sempre tão interessante. É assunto que rende.

Volto semana que vem esperando ter conseguido ver o filme para poder falar sobre ele.

Beijo grande,

Drikka

criado por dri.mo    11:01 — Arquivado em: Sem categoria

18/1/09

BBBarbaridades

Eu nunca tinha assistido a um programa de abertura do Big Brother Brasil e confesso que nunca assisti a nenhum dos outros episódios, mas quis o destino (e o horário da minissérie) que eu fizesse isso pela primeira vez essa semana que passou.

 

Depois dessa experiência, estou pensando seriamente em ver o programa. Nunca tinha ouvido tantas besteiras num espaço de tempo tão curto. Se o nível intelectual de quem entrou é tão rasteiro quanto o de quem simplesmente deu entrevista para compor o primeiro programa, a minha diversão está garantida.

 

As pérolas eram incríveis. Coisas do tipo “nunca fiquei confinado num lugar fechado”, “quem não se balbucia num lugar desse?” ou então (para mim, a melhor por ser a mais filosófica) “minha meta é a ambição”. Essas foram as que consegui anotar, pois entre um surto de gargalhadas e outro, aconteceram mais.

 

Mas, como por trás do cômico sempre existe o trágico e vice-versa, se pensarmos em termos de língua, identidade cultural e pensamento crítico, a falta de intimidade com o vernáculo assusta.

 

Procurem no dicionário o significado da palavra “balbuciar” e me expliquem pelo amor de Deus o que quis dizer a criatura com a frase que construiu ou então me expliquem como é possível confinar alguém em espaço aberto. Muito provavelmente esses dois ouviram a palavra e acharam legal, porque realmente são palavras sonoras, mas não se preocuparam em saber o que significavam ao certo e na primeira oportunidade (Aliás, que grande oportunidade! MAMÃE, EU TÔ GLOBO!) mandaram a palavra nova. O pior, assim como eles, MUITA gente.

 

Eu observo ao longo dos dias que as pessoas estão perdendo a capacidade de interpretação e isso é muito sério. Há um tipo de analfabetismo que eu considero tão grave quanto qualquer outro, mas do qual poucas pessoas se dão conta. É o analfabetismo para ler situações. As pessoas veem (grafiazinha horrível) as coisas acontecendo e são incapazes de perceber o que se passa. Toda situação tem um pano de fundo e essas pessoas são incapazes de perceber esse pano de fundo ou seja, tudo é texto, mas não constroem nenhum contexto. Mais preocupante ainda, isso começa na infância.

 

Paulo Freire observa que para uma alfabetização perfeita, é preciso que a pessoa tenha antes da iniciação às letras, uma iniciação ao mundo. É preciso construir primeiro a sua leitura de mundo para depois ler as palavras.

 

Eu atribuo sinceramente essa perda progressiva da capacidade de ler o mundo ao uso excessivo de facilitadores eletrônicos. A mente humana tem sido pouco exigida para diversas tarefas. O menor cálculo é com a calculadora, a TV que é informação fácil e o atrativo do computador e dos games eletrônicos.
O tempo que passamos em frente a esses objetos é precioso e simplesmente o desperdiçamos, quando poderíamos estar aprendendo com a observação do que se passa fora das telas.

 

Não sou contra a tecnologia, eu mesma faço uso constante dela, inclusive para postar meus textos, mas procuro distribuir o meu tempo para não perder outras capacidades que considero importantes até mesmo para que possa fazer uso inteligente da tecnologia.

  

Por essa razão, eu costumava ser muito combatida entre os professores, quando fui professora. Eu sempre disse que não se deve deixar crianças, pelo menos até terminarem o primário, usar indiscriminadamente o computador, a calculadora, o vídeo game e que televisão mesmo que usada como material didático deve ter suas restrições também. Para bem operar essas máquinas é preciso aprender a usar a SUA máquina primeiro. Se logo a princípio mostrarmos a criança que ela pode sem esforço fazer as coisas, para quê ela vai se dar ao trabalho de aprender o processo?

 

Esse tempo que a criança usa brincando, fazendo perguntas  e mesmo “fazendo besteiras” é um tempo de experimentação muito importante e eu via, como ainda vejo, com muita pena, os pais alegarem que falta tempo e paciência para cuidarem dos filhos e esses eletrônicos ajudam a manter as pestinhas quietas. Mais tarde na escola,os resultados dessa “falta de tempo” aparecem. (Além disso, fica aqui uma pergunta: se não queriam ter trabalho ou se sabiam que não iria dar tempo, para quê tiveram um filho?)

 

Percebi dando aula que as pessoas tem dificuldade em entender qualquer explicação justamente pela falta da “leitura de mundo” da qual fala (com muita propriedade, diga-se de passagem) Paulo Freire, por isso ando lendo muito sobre linguagem para descobrir de que maneira essa lacuna deixada por essa leitura atrapalha a formação e apropriação devida da própria linguagem (e conseqüentemente do idioma) no ser humano. Isso é muito grave. Uma vez atrapalhado o processo de alfabetização, não se alcança a leitura crítica e sem leitura crítica, a cultura empobrece muito. E sem cultura…

 

Para dar continuidade ao raciocínio, aconselho a leitura de 1984 de George Orwell. Nele vemos uma sociedade imaginária da qual não estamos tão longe. O que para mim é apavorante. No livro, entre outros aspectos, o autor fala sobre a mudança e o empobrecimento do idioma nativo como uma das maneiras pelas quais o povo estava sendo dominado. Vale muito a pena ler.

 

Mas, como nem tudo é tristeza, parece que as pessoas estão acordando para a importância do ato de ler e cada vez mais se fala em livros. Só falta ajustarmos o processo de formação de novos leitores que anda falhando muito. Porém, onde há vida, há esperança.

Volto no final da semana e pode deixar que eu comentarei, se agüentar, o BBB.

Beijo grande,
Drikka

criado por dri.mo    13:58 — Arquivado em: Sem categoria

10/1/09

O valor das pequenas coisas.

Quando perguntadas sobre alegria, em geral as pessoas de imediato veiculam a alegria a conquistas de grande porte. Infelizmente essas pessoas (que não são poucas) desconhecem a alegria contida nos gestos que não envolvem nenhuma compra nem tampouco esforços quiméricos.

Hoje pela manhã recebi uma surpresa, razão pela qual escrevo agora esse texto. Eu tinha levantado tarde, devido a uma noite um tanto difícil e resolvi não sair. Fui de imediato conferir meus emails como sempre faço. Entre meus emails de hoje estava um com o assunto “Lembra? : - )”. Claro que curiosa como sou, foi o primeiro que abri. Ali estava a surpresa que iluminaria meu dia como um raio de sol.

Há cerca de cinco anos eu decidi presentear um amigo que fazia aniversário e viera passar as férias no Rio, com um desenho meu. Eu estava inspirada e resolvi fazer uma paisagem do Rio que eu amo: a Enseada de Botafogo. (O interessante é que nesse momento, depois de tanto tempo, eu percebi que a cena contém alguns erros, mas sejam bonzinhos comigo e chamem de “liberdade artística”.)

Voltando ao assunto… o que tem o desenho a ver com isso?

Anexado ao email que recebi veio a foto que usei para ilustrar o post. É o desenho que fiz há tanto tempo atrás corretamente emoldurado. (Até passe-partout, chiquérrimo!)

Foi decididamente uma surpresa e tanto!

Parece algo insignificante, mas o gesto de carinho é de uma grandeza imensa. Guardado por tanto tempo, mas não esquecido. A alegria que reside em receber o carinho das pessoas que amamos é imensa.

O interessante é que outro dia, não me lembro por qual razão, me veio a mente o dia em que eu entreguei o presente e esse dia pareceu perdido em algum canto da memória. Me perguntava o que teria sido feito dele depois de algumas mudanças de endereço. Hoje descobri que ele ainda vive e vai contar sua história em uma parede de Vancouver. Bem, eu acho que o dono ainda lembra desse dia.

Provocações a parte, a sensação de bem estar que esse amigo me proporcionou vai durar por muito tempo. A alegria de saber que habitamos o coração das pessoas é aquecedora e nos faz esquecer qualquer contratempo.

Espero que ao ler esse post, ele consiga ver o sorriso que invade meu rosto, quando me sinto muito feliz, pois já não nos vemos há bastante tempo.

Querido, muito obrigada. Espero também que minhas palavras coloquem em seu rosto um raio de sol na forma do seu belo sorriso.

Um beijo grande,

Nane

criado por dri.mo    21:58 — Arquivado em: Sem categoria

7/1/09

Sou ou não sou? Eis a questão.

 

Vá lá, me deem um crédito. Eu hoje me sinto mais bem humorada.

Estava agora de frente para o espelho do banheiro escovando os dentes (sim, se eu tivesse juízo estaria na cama para acordar cedo amanhã) e pensando sobre palavras.

Já dizia Vitor Hugo (ou disseram que ele disse): ”A palavra, como se sabe, é um ser vivo”. Eu também acho que seja, pois a palavra nasce, cresce, deriva e morre. Lógico que nem todas as palavras, mas uma grande parte delas. Isso é um processo que considero normal em uma língua viva.

Eu estava especialmente pensando na palavra COVARDE.

O dicionário Houaiss diz a respeito o verbete.

Covarde

Datação

sXIII cf. IVPM

 

Acepções
adjetivo e substantivo de dois gêneros
1    que ou quem age com temor diante de alguém ou de algo

; que ou quem não apresenta valentia
Ex.: <homem c.> <os c. sempre fogem das discussões>
 

 

Estava me perguntando o que representa realmente o covarde. A definição da palavra covarde é simples, mas por quais atos uma pessoa deve se sentir ou não covarde?

Em geral vemos pessoas com espantoso desassombro para atitudes radicais, mas com pouca postura diante de pontos cruciais da própria vida. Quando ela (a vida) os põe numa encruzilhada, eles se fecham na concha que construíram para se protegerem. Chegamos ao ponto! Enfrentar a vida exige muito, mas muito mais coragem que pular de bungee jump ou saltar de asa delta.

Foi o que passou pela minha cabeça durante a sessão de higiene bucal.

Tenho visto por aí tantas pessoas vivendo a margem de si mesmas, tentando mostrar coragem com atos vazios (como costumo dizer, pulando de ópio em ópio para sobreviver) ou se destruindo aos poucos, quando viverem suas vidas e assumirem o risco de serem felizes seriam atitudes que exigiriam muito mais coragem do que qualquer outra.

Ando muito preocupada com as gerações que estão chegando. Tenho uma sobrinha que foi criada “à nossa maneira”, mas que vai viver num mundo “à maneira dos outros”. Vejo isso pelos colegas dela. Como pode uma pessoa achar que criar um filho egoísta e muitas vezes mentiroso (justamente por não terem sido preparados para enfrentarem as consequências dos seus atos) ajudará a essa criatura a se manter de pé no mundo? Fico com pena dos desenganos que virão. Como sabiamente diz minha mãe: a vida mais bate do que beija.

Todos temos medo e muitas vezes sentimos vontade de pular a fase ou recuar, eu até acho normal, mas se isso não se torna uma postura crônica. Quando estamos sempre evitando resolver assuntos pendentes, sempre tentando enganar nossas próprias consciências e os outros, isso para mim já caracteriza covardia.

Lembro de há uns posts atrás ter falado que ainda quero muito um filho e é exatamente por essa razão que essas idéias andam fixas na minha mente. Me sinto responsável por nutrir meu possível filho com elementos que lhe deem força para uma visão real da vida e o impeçam de ser um covarde. Quero que ele tenha estrutura para enfrentar dificuldades sem depender de qualquer elemento externo. (Sim, eu me refiro ao vício ou a comportamentos de vício.)

Eu passei muitos anos vendo o que os pais estão fazendo com seus filhos e consequentemente vendo a sociedade caminhar para o caos em função da falta total de estrutura das pessoas que a formam.

Pode parecer exagero, mas um olhar mais apurado em volta vai perceber que muitas pessoas estão na vida, mas muito poucas efetivamente estão sabendo viver.

Beijo grande.

Volto semana que vem!

Drikka

criado por dri.mo    0:03 — Arquivado em: Sem categoria
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