27/9/09
Porque seu coração é uma ilha a centenas de milhas daqui…
Há pessoas que cultivam a solidão como quem planta um latifúndio.
Eu falo de pessoas que conheço. Não sei como elas podem ser felizes sozinhas. Eu não estou falando de casamento, não. Eu estou falando de amizade, de família, de afetividade num sentido menos restrito que as relações românticas (vamos demarcar dessa forma).
É estranho observar essas pessoas. Elas estão sempre cercadas de gente, mas a essência está preservada em algum lugar distante. A ilha que construíram dentro de si e que se torna inalcançável, porque elas mesmas naufragam os barcos de resgate, se você tentar chegar lá. Sua única saída é contentar-se em ser um farol observando à distância o que passa sem poder sair do lugar.
Eis o problema. Não sei me contentar em ser farol só e tampouco sei nadar. E mesmo que soubesse nadar, de que adiantaria?
Resolvi escrever sobre isso porque o processo é muito cansativo e desgastante. Eu creio em relações humanas com base na troca e as pessoas ilha não sabem fazer isso. Seu farol pode lhes dar a luz que for, porém você jamais receberá um sinal de volta. Elas vivem distantes da costa onde você e muitos porcento da população estão. Elas veem, são vistas, mas não há troca. Tudo é sempre unilateral.
As pessoas ilha são facilmente detectáveis. Demonstre afeto e elas agirão burocraticamente. No caso desta sua demonstração lhes atingir em cheio, elas vão sumir por um tempo como se você não existisse na vida delas ou então, jamais tivesse dito o que disse ou feito o que fez. É muito fácil isolar-se quando se vive distante e elas se isolam mesmo e isso fere quem está na posição de farol. Até que você entenda que o egoísmo é mais uma defesa que um ataque, você tem muita vontade de sumir também.
Por viverem em uma postura defensiva, elas podem ser muito “agressivas” no ponto de vista verbal e “surdas” no ponto de vista auditivo. É simples, escutar as razões do outro, significa interagir. Ilha interagindo???? Só se construir pontes. Ah, mas isso dá trabalho e pode causar perdas. Ilhas não lidam bem com perdas, elas querem ganhar sempre. O quê, eu não sei. Não vejo nenhum lucro na solidão constante.
Eu estou tentando arrumar a casa e fechar ciclos, isso me torna uma pessoa enigmática, mas falar por parábolas nem sempre é ruim. Se as ilhas tiverem olhos de ler que leiam, se não tiverem, não adianta ser direto. Elas não vão entender mesmo.
É que eu me dediquei por longo tempo a tentar resgatar ilhas. Agora, depois desse tempo, me sinto cansada das idas e vindas, dos sumiços e dos aparecimentos, das quase demonstrações de afeto que não se concretizam em uma postura firme. Entendam, não é preciso estar ao lado para que a pessoa sinta que você está.
Uma hora estou no alto, outra hora não existo. Para falar a verdade, eu não tenho certeza de que um dia estive no alto, que era vista iluminando tudo (ou tentando pelo menos). Ilhas nunca dizem o que realmente sentem. (Será que sentem? Jamais saberei.)
Esses anos de tentativa de resgate me trouxeram a sensação de ser sempre uma sombra. Não mais que isso. É uma coisa meio doida, pois a sensação que tenho é que eu conheço as ilhas, mas ninguém sabe que eu sei que elas existem ou seja, eu não existo para as outras pessoas que existem para ela. (Ai, parei! Isso me deixa confusa!)
Eu só sei dizer que vai ser muito difícil me afastar até uma distância segura, mas não dá mais. Agora, só me resta a ilha vir, senão nem eu nem Maomé iremos a ela. (Tá, Maomé era com a montanha, mas vá…)
Eu não curto solidão e lamento quem curte.
Esse post é porque achei uma carta escrita há longo tempo, quando minha luta para colocar botes no mar por uma das minhas ilhas começou.
Ilha, perto ou longe, não faria a menor diferença, nada estaria diferente e mesmo que fizesse, você jamais me diria.
Fica com Deus!
Um beijo.
PS: A foto é do Google Earth e mostra uma ilha na Croácia.

criado por dri.mo
19:50 — Arquivado em: 
