22/3/09
“O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar, não adianta chamá-lo, pois ele só vem quando quer.”
Lendo Memórias de Adriano é impossível não quedar-se fascinado pela prosa envolvente de M.Yourcenar.
Baseando-se em fatos da vida do famoso imperador, viajamos num emaranhado de pensamentos. Refletindo sobre sua condição no final da vida, Adriano nos leva a um mergulho na alma humana através da sua própria alma e entre as muitas questões levantadas estão o amor, o outro, o encontro e, quem sabe, o desencontro.
Estaria mentindo aquele que dissesse que jamais refletiu sobre esses assuntos. Habita em nós um ideal de perfeição do qual ainda estamos léguas distantes.
E falando sobre o amor… para mim, uma das melhores definições sobre ele está nos versos da Habanera da ópera Carmem. O amor, esse pássaro rebelde que tantos fingem desprezar, mas que no fundo, no fundo, todos esperamos um dia encontrar.
A verdade é que a simpatia mútua que une duas pessoas realmente é algo que não se explica e que não se pode controlar. Essa inexplicável atração que leva o ser humano a dar-se sem ter medo de ser conhecido é acima de tudo, um exercício diário de tolerância com as nossas próprias imperfeições. Ao escolhermos abrir nosso interior para abrigarmos o outro, escolhemos parar diante do espelho. Acho que é aí que começam os desencontros.
É muito difícil admitirmos nossas falhas diárias, apesar de sermos seres com arestas e precisarmos apará-las a cada dia para que nos tornemos “suaves” no convívio. De certa forma me parece que construímos uma autoimagem seja por proteção, preguiça ou incapacidade de lutar para melhorar e de acordo com a razão que nos leva a essa persona, conseguiremos ou não, parar diante do espelho.
Eu sei que amar alguém não implica necessariamente em essa pessoa amar você também. Como já disse Bizet “o amor é um pássaro rebelde (…) ele só vem quando quer“, mas um mínimo de consideração (mesmo que não seja isso exatamente o que se espera do ser amado) é desejável.
É bem difícil estabelecer o que seria consideração, pois nem pessoas que recebem a mesma educação são capazes de ter os mesmos critérios. Nesse caso é preciso prestar atenção no outro para saber que itens se aplicam. Cada caso será um caso.
Para uns é tão somente saber que é lembrado, para outros será preciso estar sempre por perto, isso vai depender muito da pessoa, mas o mais importante disso tudo é ter a sensação de que o que de especial dedicamos a alguém, muito embora não tenha trazido o retorno esperado, não ficou de todo perdido.
Acho que é exatamente esse “sentir que algo está perdido” que está mudando minha disposição interior. Eu confesso que tenho me sentido cansada com a interminável busca de algum sinal de que não sou uma peça avulsa.
Durante muito tempo persegui isso. Agora não sei mais se vale a pena.
Minha postura não é bem de desistência, de corte súbito. Apenas não irei mais atrás de nada e qualquer que seja a resposta que o outro se disponha a dar (se algum dia, se dispuser a fazer isso) que ele mesmo dê, caso contrário, eu não vou mais buscá-la.
Como diz uma amiga, amor a gente não deixa de amar, apenas abre espaço para novos afetos. Acredito ser essa minha nova postura (vamos chamar assim) a abertura necessária para um novo espelho.
Parei de chamar. Agora o pássaro, se quiser… que venha!
Beijos e boa semana.
Drikka
PS: Desculpem não estar postando toda semana. A coluna tem derrubado minhas melhores intenções.

criado por dri.mo
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