Minha retina

Reflexões sobre as imagens que chegam aos meus olhos.

27/3/09

Se não quer ser mal interpretado, não deixe lacunas.

Espaços podem ser preenchidos com qualquer coisa. Se queremos que saibam exatamente as razões pelas quais agimos ou o que estamos pensando, devemos preencher esses espaços antes que a outra pessoa o faça.

Eu ando preenchendo muitas lacunas esses dias e é engraçado, porque pensei que só eu pensasse assim, mas quando a minha frase do MSN apareceu para uma amiga, ela logo falou que se sentia aliviada em saber que alguém concordava com ela. Eu também estava.

A questão é simples. Somos avaliados o tempo todo pelo que falamos e o que fazemos, mas certamente somos muito mais avaliados por aquilo que deixamos de falar ou fazer. Um silêncio pode ser sábio, não falar nunca, pode ser problemático.

Há anos eu me debato com essa questão exatamente por tender a preencher o silêncio dos outros. Sou uma pessoa que acha que conversar é um excelente caminho para se chegar a um lugar. Não sei guardar o que sinto. Se não está na ponta da língua, está explícito no meio da testa. Acho que é por essa razão que não consigo aceitar que as pessoas não falem e deixem margem para interpretação errada o tempo todo.

Pensando bem, porque seria errada? Pode ser que o que não dizem seja exatamente aquilo que acham que jamais será visto, mas que pode se tornar evidente quando o espaço vazio dá lugar para uma idéia qualquer.

Muitas pessoas pensam que calando completamente estão protegendo suas idéias. Nem sempre, elas às vezes (às vezes?) transparecem nas atitudes e são justamente essas atitudes que nos ajudam a preencher os vazios. Muito cuidado com o que faz na tentativa de disfarçar o que pensa.

O que me deixa mais irritada é quando a pessoa quer contestar as conclusões que tiramos das atitudes e do silêncio dela. Se queria ser entendida de primeira, falasse. Esse negócio de tentar remendar depois que já esgarçou é muito cansativo. Chega uma hora que não tem mais como cerzir a paciência do outro e a coisa desanda.

Eu ando azeda, né? Mas agradeço a paciência de vocês (que ainda não está precisando ser cerzida) em agüentar as coisas que ando purgando.

Beijocas e boa semana.

Drikka

criado por dri.mo    23:27 — Arquivado em: Sem categoria

22/3/09

“O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar, não adianta chamá-lo, pois ele só vem quando quer.”

Lendo Memórias de Adriano é impossível não quedar-se fascinado pela prosa envolvente de M.Yourcenar.

Baseando-se em fatos da vida do famoso imperador, viajamos num emaranhado de pensamentos. Refletindo sobre sua condição no final da vida, Adriano nos leva a um mergulho na alma humana através da sua própria alma e entre as muitas questões levantadas estão o amor, o outro, o encontro e, quem sabe, o desencontro.

Estaria mentindo aquele que dissesse que jamais refletiu sobre esses assuntos. Habita em nós um ideal de perfeição do qual ainda estamos léguas distantes.

E falando sobre o amor… para mim, uma das melhores definições sobre ele está nos versos da Habanera da ópera Carmem. O amor, esse pássaro rebelde que tantos fingem desprezar, mas que no fundo, no fundo, todos esperamos um dia encontrar.

A verdade é que a simpatia mútua que une duas pessoas realmente é algo que não se explica e que não se pode controlar. Essa inexplicável atração que leva o ser humano a dar-se sem ter medo de ser conhecido é acima de tudo, um exercício diário de tolerância com as nossas próprias imperfeições. Ao escolhermos abrir nosso interior para abrigarmos o outro, escolhemos parar diante do espelho. Acho que é aí que começam os desencontros.

É muito difícil admitirmos nossas falhas diárias, apesar de sermos seres com arestas e precisarmos apará-las a cada dia para que nos tornemos “suaves” no convívio. De certa forma me parece que construímos uma autoimagem seja por proteção, preguiça ou incapacidade de lutar para melhorar e de acordo com a razão que nos leva a essa persona, conseguiremos ou não, parar diante do espelho.

Eu sei que amar alguém não implica necessariamente em essa pessoa amar você também. Como já disse Bizet “o amor é um pássaro rebelde (…) ele só vem quando quer“, mas um mínimo de consideração (mesmo que não seja isso exatamente o que se espera do ser amado) é desejável.

É bem difícil estabelecer o que seria consideração, pois nem pessoas que recebem a mesma educação são capazes de ter os mesmos critérios. Nesse caso é preciso prestar atenção no outro para saber que itens se aplicam. Cada caso será um caso.

Para uns é tão somente saber que é lembrado, para outros será preciso estar sempre por perto, isso vai depender muito da pessoa, mas o mais importante disso tudo é ter a sensação de que o que de especial dedicamos a alguém, muito embora não tenha trazido o retorno esperado, não ficou de todo perdido.

Acho que é exatamente esse “sentir que algo está perdido” que está mudando minha disposição interior. Eu confesso que tenho me sentido cansada com a interminável busca de algum sinal de que não sou uma peça avulsa.

Durante muito tempo persegui isso. Agora não sei mais se vale a pena.

Minha postura não é bem de desistência, de corte súbito. Apenas não irei mais atrás de nada e qualquer que seja a resposta que o outro se disponha a dar (se algum dia, se dispuser a fazer isso) que ele mesmo dê, caso contrário, eu não vou mais buscá-la.

Como diz uma amiga, amor a gente não deixa de amar, apenas abre espaço para novos afetos. Acredito ser essa minha nova postura (vamos chamar assim) a abertura necessária para um novo espelho.

Parei de chamar. Agora o pássaro, se quiser… que venha!

Beijos e boa semana.

Drikka

PS: Desculpem não estar postando toda semana. A coluna tem derrubado minhas melhores intenções.

criado por dri.mo    22:14 — Arquivado em: Sem categoria

8/3/09

Negócio da China

Muito embora eu ande meio pelas tampas com os orientais (motivos de trabalho), eu não me furto a ver a novela das 18h sempre que o trabalho me permite.

Independente da minha notória “paixão fraterna” por Miguel Falabella, a novela é muito boa. Leve, com bons exemplos, português (não os lusitanos, mas a língua) corretos, como deve ser um bom folhetim. Há muito uma novela não me faz ter vontade de ver novela. Essa, pela pura diversão de bom nível que oferece, me atraiu profundamente.

Eu estou comentando isso, porque tenho lido críticas desfavoráveis, além da infeliz entrevista de Benedito Rui Barbosa há uns dias atrás. Acho sinceramente que as pessoas não estão mais conseguindo discernir entre o que pode ser nocivo à sociedade e o que pode ser útil.

Tive o prazer de conhecer Miguel pessoalmente através de um amigo em comum. É interessante ver que ele consegue ser uma pessoa única, esteja ou não na frente das câmeras. Não existe uma persona para cada momento, talvez por isso ele seja tantas vezes incompreendido.

Nos poucos encontros que tivemos, pude ver nele a pessoa apaixonada pelo trabalho que desenvolve e que é muito seriamente comprometida com os resultados positivos que possam vir para as platéias do país. A coleção de suas obras resgata valores, História e cultura. No mundo de hoje, é mesmo difícil que o senso comum o compreenda.

A novela “Negócio da China” é um exemplo da incompreensão de parte do público. Com citações de grandes autores, com diálogos que respeitam a norma culta da língua e recheados de idéias inteligentes, a novela demonstra que a diversão pode ser educativa. Não estou falando que as pessoas devam considerar a TV seu único veículo educativo, mas uma vez que a telenovela é uma realidade na vida do brasileiro, que ao menos tenha bom nível.

Eu tenho uma enorme preocupação com a falta de amor próprio do nosso povo. É esse o único motivo que vejo para tamanho desprezo por uma cultura tão rica que algumas pessoas, me inclua no grupo, tentam desesperadamente resgatar e manter protegida.

Um ponto a mais para a novela que tem em seu elenco três excelentes atores de Portugal é a integração de culturas diferentes, além de mostrar o talento de outros povos. Eu particularmente gosto de música portuguesa. (Quem vê a novela vai entender.)

Nesse momento me vem à mente uma frase de Ariano Suassuna. Em uma entrevista para um programa de TV, o grande autor e defensor da cultura brasileira, disse que “Não precisamos odiar a cultura dos outros. Precisamos, sim, aprender a amar a nossa cultura”.

Miguel reconhece e ama todas as culturas e principalmente a sua própria. Sabe que cultura, quanto mais, melhor e divide isso com todos através de seu trabalho.

Aos críticos de “Negócio da China”, meu muito obrigado, pois muitas vezes a crítica que tenta diminuir, só ressalta o mérito da obra bem realizada.

criado por dri.mo    22:57 — Arquivado em: Sem categoria
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