Minha retina

Reflexões sobre as imagens que chegam aos meus olhos.

8/2/09

Mea culpa

Eu sempre tive por hábito observar gente no atacado, mas depois que comecei a dar aulas, tomei gosto por observar gente no varejo. A sociedade é um grande organismo vivo e cada ser é uma de suas células. (Admitam, essa frase ficou bonita, né?)

O que estou querendo mostrar é que todos, sem exceção, somos responsáveis pelo momento social em que nos encontramos. Uns contribuem de forma positiva e outros não.

Essa idéia me perseguiu essa semana, uma semana de mais balas achadas e vidas perdidas.

Fiquei me perguntando como chegamos a essa situação e por que razão a vida humana está valendo tão pouco e as pessoas parecem ter um desprezo imenso por regras, além de desconhecerem por completo a palavra respeito.

Num loop alucinado do meu pensamento me lembrei de um motorista de taxi que me falou que o problema era a impunidade. Ninguém era punido, ninguém ia para a cadeia e eu concordo com ele até certo ponto. Explico. Não acho que impunidade seja só uma questão da Justiça. É claro que a frouxidão do judiciário é uma das razões (grande até), só que eu acho que a questão da impunidade na nossa sociedade começa bem antes de alguém chegar a um tribunal.

Eu trabalhei durante doze anos com a base da sociedade: crianças e suas famílias. Nesse período, fui capaz de perceber que a noção de que se pode fazer qualquer coisa sem castigo começa já na família. A impunidade que vem depois é mero prolongamento que se torna mais perigoso para a sociedade, pois as infrações se tornam mais graves.

Muita gente me diz que é exagero comparar as situações, mas a criança dentro de seu universo familiar, deve viver um laboratório de conceitos e atitudes que usará no convívio social depois de adulta. A escola é o segundo núcleo importante. Se a família não fez sua parte, a segunda fase do aprendizado social pode se tornar traumática para a criança, os colegas e principalmente o professor.

Recebemos cerca de quarenta crianças por ano em sala de aula e todas (salvo raras e gratificantes exceções) vinham sem saber o que era ouvir não dos pais. Na maioria das vezes faziam o que queriam, desconheciam completamente o cumprimento de regras e não eram responsáveis por seus atos dentro da escola. Quando os pais eram questionados sobre as atitudes absurdas dos filhos (enforcar o colega até quase sufocar, bater nos colegas, roubar objetos, xingar a professora, rasgar as provas na cara do professor, fraudar resultados de provas, assinar pelos pais os avisos da escola, etc. - a lista é imensa.) diziam que eram “somente crianças”, que aquilo era “coisa de criança”. O que se espera do futuro de uma sociedade onde as crianças crescem achando que fazer qualquer coisa é normal?

Eu costumava dizer para os meus alunos que a escola era o emprego deles e que se eles não sabiam ser responsáveis e conviver bem com colegas ali, como fariam no futuro? Era uma loucura! Eles faltavam aulas, matavam provas, não faziam deveres e os pais sempre na hora da entrada ou da saída vinham com uma desculpa esfarrapada para justificar o filho errado. Isso fora a lista que citei acima. De quem era o maior erro?

Eu costumo dizer que o Brasil é um país sem visão de macro. Só conseguimos enxergar as unidades. Essas pessoas não veem que os filhos irão para o futuro despreparados para qualquer situação que os contrarie. Eles realmente achavam que os filhos deveriam ser obedecidos e atendidos por todos. Essas pessoas só esqueceram um detalhe: cada unidade formada para ser única diante dos outros solta na rua juntando com as outras tantas do mesmo jeito, só pode dar em conflito.

Não foram acostumados a ter limite. Há uma hora que, se você foi criado com regras claras, sabe que deve parar. Mostrar o certo e o errado a um filho é imensa obra de caridade. Minha mãe costumava dizer que nosso direito (meu e da minha irmã) terminava onde começava o dos outros. Assim a criança cresce sabendo respeitar quem está perto e que se cometer erros, terá que ser responsável por eles e é na infância sim que se aprende isso. Na adolescência exercitamos e trabalhamos para nos encaixar na sociedade e na idade adulta vivemos para perpetuar esses conceitos.

O que tenho visto da Justiça é tão somente a visão em âmbito ampliado do que vi há tempos atrás com os pais dos meus alunos. Quem sabe não reduziríamos muito as oportunidades da Justiça deixar impunes criminosos, se começássemos a educar nossas crianças e jovens com responsabilidade e respeito? Se você sabe que erro pede reparação, vai pensar duas vezes antes de errar. Ou não?

Meu avô costumava dizer uma frase de Pitágoras: Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens.

Educar requer paciência e bom senso. Além disso, se realmente pretende educar alguém, a primeira pessoa a quem tem que educar é você, pois as palavras são mero som sem o exemplo.

Volto semana que vem.

Um beijo grande a todos,
Drikka

criado por dri.mo    22:43 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Oi Linda. Situação complicada que vivemos hoje. Pais que trabalham fora e para “acabar” com a distância dos filhos não falam não para seus filhos. Pais que querem descanso e mandam para a escola educar, sendo que uma parte dessa educação vem de casa, não é nada fácil. E o que vejo é um futuro ainda pior! Realmente quanto a isso não estou animada, infelizmente e espero que eu esteja errada, tomara!!!!!!!

    Dizer não também é amor!

    Beijokas, linda semana.

    Li.

    Comentário por Alice — 15 15UTC fevereiro 15UTC 2009 @ 21:18

  2. Olha estava pesquisando uma coisa qualquer e entrei no teu blog, comecei a ler os posts e fiquei encantada com o que sscreveste nesse texto.
    Sou estagiária em uma escola e leciono uma turma de 6ª série. Vejo que o maior problema é a falta de educação em casa e consequentemente a falta de disciplina e respeito na escola. Fico tão frustrada que não raras vezes sinto vontade de abandonar o magistério. Acho linda a frase que citastes: Eduquem as crianças que não será preciso castigar os homens mais tarde.
    Tenho uma filha de 09 anos e sou bastante rigorosa na educação dela. Ao mesmo tempo, dou-lhe atenção e carinho em tempo integral,, uma vez que sou pai e mãe. Os resultados estão aí: nunca tive nenhuma reclamação de professora alguma sobre o comportamento de minha filha.
    Fui criada com limites, que embora excessivos, me ajudaram a ser a pessoa de caráter, que julgo ser.
    Parabéns pelo texto!!

    Comentário por Neuza — 18 18UTC junho 18UTC 2009 @ 11:24

  3. Olá Drikka,
    Fiquei impressionado com suas colocações.
    Pessoa de textos memoráveis…
    Faço hoje Design de Interiores e me intereço por textos, teorias, frases…
    Enfim tudo ao nosso redor, acho que é culpa da Metodologia Visual.
    Gostaria que me adicionasse no MSN para trocarmos idéias.
    MSN.: salaoorienterj@hotmail.com
    Bjos Queiroz

    Comentário por Felipe — 25 25UTC setembro 25UTC 2009 @ 16:14

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