
Eu sempre tive por hábito observar gente no atacado, mas depois que comecei a dar aulas, tomei gosto por observar gente no varejo. A sociedade é um grande organismo vivo e cada ser é uma de suas células. (Admitam, essa frase ficou bonita, né?)
O que estou querendo mostrar é que todos, sem exceção, somos responsáveis pelo momento social em que nos encontramos. Uns contribuem de forma positiva e outros não.
Essa idéia me perseguiu essa semana, uma semana de mais balas achadas e vidas perdidas.
Fiquei me perguntando como chegamos a essa situação e por que razão a vida humana está valendo tão pouco e as pessoas parecem ter um desprezo imenso por regras, além de desconhecerem por completo a palavra respeito.
Num loop alucinado do meu pensamento me lembrei de um motorista de taxi que me falou que o problema era a impunidade. Ninguém era punido, ninguém ia para a cadeia e eu concordo com ele até certo ponto. Explico. Não acho que impunidade seja só uma questão da Justiça. É claro que a frouxidão do judiciário é uma das razões (grande até), só que eu acho que a questão da impunidade na nossa sociedade começa bem antes de alguém chegar a um tribunal.
Eu trabalhei durante doze anos com a base da sociedade: crianças e suas famílias. Nesse período, fui capaz de perceber que a noção de que se pode fazer qualquer coisa sem castigo começa já na família. A impunidade que vem depois é mero prolongamento que se torna mais perigoso para a sociedade, pois as infrações se tornam mais graves.
Muita gente me diz que é exagero comparar as situações, mas a criança dentro de seu universo familiar, deve viver um laboratório de conceitos e atitudes que usará no convívio social depois de adulta. A escola é o segundo núcleo importante. Se a família não fez sua parte, a segunda fase do aprendizado social pode se tornar traumática para a criança, os colegas e principalmente o professor.
Recebemos cerca de quarenta crianças por ano em sala de aula e todas (salvo raras e gratificantes exceções) vinham sem saber o que era ouvir não dos pais. Na maioria das vezes faziam o que queriam, desconheciam completamente o cumprimento de regras e não eram responsáveis por seus atos dentro da escola. Quando os pais eram questionados sobre as atitudes absurdas dos filhos (enforcar o colega até quase sufocar, bater nos colegas, roubar objetos, xingar a professora, rasgar as provas na cara do professor, fraudar resultados de provas, assinar pelos pais os avisos da escola, etc. - a lista é imensa.) diziam que eram “somente crianças”, que aquilo era “coisa de criança”. O que se espera do futuro de uma sociedade onde as crianças crescem achando que fazer qualquer coisa é normal?
Eu costumava dizer para os meus alunos que a escola era o emprego deles e que se eles não sabiam ser responsáveis e conviver bem com colegas ali, como fariam no futuro? Era uma loucura! Eles faltavam aulas, matavam provas, não faziam deveres e os pais sempre na hora da entrada ou da saída vinham com uma desculpa esfarrapada para justificar o filho errado. Isso fora a lista que citei acima. De quem era o maior erro?
Eu costumo dizer que o Brasil é um país sem visão de macro. Só conseguimos enxergar as unidades. Essas pessoas não veem que os filhos irão para o futuro despreparados para qualquer situação que os contrarie. Eles realmente achavam que os filhos deveriam ser obedecidos e atendidos por todos. Essas pessoas só esqueceram um detalhe: cada unidade formada para ser única diante dos outros solta na rua juntando com as outras tantas do mesmo jeito, só pode dar em conflito.
Não foram acostumados a ter limite. Há uma hora que, se você foi criado com regras claras, sabe que deve parar. Mostrar o certo e o errado a um filho é imensa obra de caridade. Minha mãe costumava dizer que nosso direito (meu e da minha irmã) terminava onde começava o dos outros. Assim a criança cresce sabendo respeitar quem está perto e que se cometer erros, terá que ser responsável por eles e é na infância sim que se aprende isso. Na adolescência exercitamos e trabalhamos para nos encaixar na sociedade e na idade adulta vivemos para perpetuar esses conceitos.
O que tenho visto da Justiça é tão somente a visão em âmbito ampliado do que vi há tempos atrás com os pais dos meus alunos. Quem sabe não reduziríamos muito as oportunidades da Justiça deixar impunes criminosos, se começássemos a educar nossas crianças e jovens com responsabilidade e respeito? Se você sabe que erro pede reparação, vai pensar duas vezes antes de errar. Ou não?
Meu avô costumava dizer uma frase de Pitágoras: Eduquem os meninos e não será preciso castigar os homens.
Educar requer paciência e bom senso. Além disso, se realmente pretende educar alguém, a primeira pessoa a quem tem que educar é você, pois as palavras são mero som sem o exemplo.
Volto semana que vem.
Um beijo grande a todos,
Drikka