18/1/09
BBBarbaridades
Eu nunca tinha assistido a um programa de abertura do Big Brother Brasil e confesso que nunca assisti a nenhum dos outros episódios, mas quis o destino (e o horário da minissérie) que eu fizesse isso pela primeira vez essa semana que passou.
Depois dessa experiência, estou pensando seriamente em ver o programa. Nunca tinha ouvido tantas besteiras num espaço de tempo tão curto. Se o nível intelectual de quem entrou é tão rasteiro quanto o de quem simplesmente deu entrevista para compor o primeiro programa, a minha diversão está garantida.
As pérolas eram incríveis. Coisas do tipo “nunca fiquei confinado num lugar fechado”, “quem não se balbucia num lugar desse?” ou então (para mim, a melhor por ser a mais filosófica) “minha meta é a ambição”. Essas foram as que consegui anotar, pois entre um surto de gargalhadas e outro, aconteceram mais.
Mas, como por trás do cômico sempre existe o trágico e vice-versa, se pensarmos em termos de língua, identidade cultural e pensamento crítico, a falta de intimidade com o vernáculo assusta.
Procurem no dicionário o significado da palavra “balbuciar” e me expliquem pelo amor de Deus o que quis dizer a criatura com a frase que construiu ou então me expliquem como é possível confinar alguém em espaço aberto. Muito provavelmente esses dois ouviram a palavra e acharam legal, porque realmente são palavras sonoras, mas não se preocuparam em saber o que significavam ao certo e na primeira oportunidade (Aliás, que grande oportunidade! MAMÃE, EU TÔ GLOBO!) mandaram a palavra nova. O pior, assim como eles, MUITA gente.
Eu observo ao longo dos dias que as pessoas estão perdendo a capacidade de interpretação e isso é muito sério. Há um tipo de analfabetismo que eu considero tão grave quanto qualquer outro, mas do qual poucas pessoas se dão conta. É o analfabetismo para ler situações. As pessoas veem (grafiazinha horrível) as coisas acontecendo e são incapazes de perceber o que se passa. Toda situação tem um pano de fundo e essas pessoas são incapazes de perceber esse pano de fundo ou seja, tudo é texto, mas não constroem nenhum contexto. Mais preocupante ainda, isso começa na infância.
Paulo Freire observa que para uma alfabetização perfeita, é preciso que a pessoa tenha antes da iniciação às letras, uma iniciação ao mundo. É preciso construir primeiro a sua leitura de mundo para depois ler as palavras.
Eu atribuo sinceramente essa perda progressiva da capacidade de ler o mundo ao uso excessivo de facilitadores eletrônicos. A mente humana tem sido pouco exigida para diversas tarefas. O menor cálculo é com a calculadora, a TV que é informação fácil e o atrativo do computador e dos games eletrônicos.
O tempo que passamos em frente a esses objetos é precioso e simplesmente o desperdiçamos, quando poderíamos estar aprendendo com a observação do que se passa fora das telas.
Não sou contra a tecnologia, eu mesma faço uso constante dela, inclusive para postar meus textos, mas procuro distribuir o meu tempo para não perder outras capacidades que considero importantes até mesmo para que possa fazer uso inteligente da tecnologia.
Por essa razão, eu costumava ser muito combatida entre os professores, quando fui professora. Eu sempre disse que não se deve deixar crianças, pelo menos até terminarem o primário, usar indiscriminadamente o computador, a calculadora, o vídeo game e que televisão mesmo que usada como material didático deve ter suas restrições também. Para bem operar essas máquinas é preciso aprender a usar a SUA máquina primeiro. Se logo a princípio mostrarmos a criança que ela pode sem esforço fazer as coisas, para quê ela vai se dar ao trabalho de aprender o processo?
Esse tempo que a criança usa brincando, fazendo perguntas e mesmo “fazendo besteiras” é um tempo de experimentação muito importante e eu via, como ainda vejo, com muita pena, os pais alegarem que falta tempo e paciência para cuidarem dos filhos e esses eletrônicos ajudam a manter as pestinhas quietas. Mais tarde na escola,os resultados dessa “falta de tempo” aparecem. (Além disso, fica aqui uma pergunta: se não queriam ter trabalho ou se sabiam que não iria dar tempo, para quê tiveram um filho?)
Percebi dando aula que as pessoas tem dificuldade em entender qualquer explicação justamente pela falta da “leitura de mundo” da qual fala (com muita propriedade, diga-se de passagem) Paulo Freire, por isso ando lendo muito sobre linguagem para descobrir de que maneira essa lacuna deixada por essa leitura atrapalha a formação e apropriação devida da própria linguagem (e conseqüentemente do idioma) no ser humano. Isso é muito grave. Uma vez atrapalhado o processo de alfabetização, não se alcança a leitura crítica e sem leitura crítica, a cultura empobrece muito. E sem cultura…
Para dar continuidade ao raciocínio, aconselho a leitura de 1984 de George Orwell. Nele vemos uma sociedade imaginária da qual não estamos tão longe. O que para mim é apavorante. No livro, entre outros aspectos, o autor fala sobre a mudança e o empobrecimento do idioma nativo como uma das maneiras pelas quais o povo estava sendo dominado. Vale muito a pena ler.
Mas, como nem tudo é tristeza, parece que as pessoas estão acordando para a importância do ato de ler e cada vez mais se fala em livros. Só falta ajustarmos o processo de formação de novos leitores que anda falhando muito. Porém, onde há vida, há esperança.
Volto no final da semana e pode deixar que eu comentarei, se agüentar, o BBB.
Beijo grande,
Drikka

criado por dri.mo
13:58 — Arquivado em: 

Drikka:
Visitei seu blog e gostei muito do que você escreveu. Já está nos meus Favoritos!
Por isso, gostaria de convidar você a participar do blog “Duelos Literários”, no qual as pessoas criam textos sobre temas de sua escolha e os textos são postados no próprio blog.
Passe por lá e, se gostar da proposta, participe!
duelosliterarios.blog.terra.com.br
Um abraço, parabéns pelo seu blog e ótimo 2009!
Comentário por shintoni — 18 18UTC janeiro 18UTC 2009 @ 15:05
Adriane:
Valeu sua participação no Duelos!
Lindo o post! Já está postado!
Adorei este do BBB também! Dá até vontade de assistir como programa humorístico! Valeu a dica!
Seja bem-vinda ao Duelos e volte sempre!
Um grande abraço!
Comentário por shintoni — 19 19UTC janeiro 19UTC 2009 @ 11:11
Hahahahahaha… eu sou testemunha de que essas “pérolas” foram ditas no BBB, Diversão tosca mas q gera boas gargalhadas. Parabéns pelo texto, está perfeito! Beijos!
Comentário por Mônica — 23 23UTC janeiro 23UTC 2009 @ 19:54
Gente, tinha um erro de português nesse texto. Corrigi.
Foi o sono
Bjo,
Drikka
Comentário por DRIKKA — 5 05UTC fevereiro 05UTC 2009 @ 21:44