Minha retina

Reflexões sobre as imagens que chegam aos meus olhos.

24/1/09

Vivendo pelo avesso

Ontem passei na porta do Espaço (ex-espaço) Unibanco de Cinema e vi o cartaz de um filme. RUMBA é o nome da produção (http://www.interfilmes.com/filme_20826_Rumba-(Rumba).html). Por algum motivo que não sei explicar (talvez o colorido agradável do cartaz ou a posição das pessoas na foto) sei que parei e vi que era uma comédia e o assunto me fez lembrar há quanto tempo não entro naquele cinema e tive vontade de ver a fita.

Como não tinha tempo para parar e entrar, segui em frente, mas me ocorreu um pensamento. Por que perdemos tanto tempo com tolas comédias americanas e não assistimos nenhuma comédia de outros países?

Muito embora não tenha obtido a resposta para o meu questionamento, lembrei-me, caminhando tortuosamente pelos meus pensamentos, de um comentário sobre Pedro Almodóvar e seus filmes.

Certa vez, conversando com um grupo de amigos sobre o cineasta espanhol, um deles comentou que não gostava dos filmes dele, pois pareciam sempre muito absurdos.

Realmente, se levarmos ao pé da letra o que passa no filme, tudo soará muito absurdo. Porém, se isolarmos as personagens, veremos retratos precisos do ser humano em sua forma mais crua: a imperfeição.

Eu comparo a reação de algumas pessoas a determinadas obras de arte (nesse caso, os filmes de Almodóvar) à reação que os animais tem diante do espelho. Eles se veem, mas por não saberem ser daquela forma, não se reconhecem e atacam.

O que Almodóvar reúne na tela é tão simplesmente um mosaico de ações, reações e emoções humanas, das quais nos achamos imunes, mas que na verdade, se não praticamos, nos sabemos perfeitamente capazes de fazê-lo. Só que não gostamos de admitir. Talvez, não nos querermos ver seja o maior motivo da rejeição.

Para mim, ele constrói uma grande metáfora da existência humana, esse é o verdadeiro espetáculo. As personagens parecem pessoas vistas pelo avesso, pela parte de dentro, aquela que tanto desejamos ocultar. Uma face de loucura, outra de paixão, sentimentalismo, tolice e revolta ou razão, faces que montam o poliedro humano.

É impossível não sentir-se estranho diante da grande tela, quando vemos projetados em uma cena aparentemente simples essas várias faces às vezes ao mesmo tempo, mas é exatamente esse estranhamento que atrai para a obra do cineasta. É preciso um olhar investigador mais atento para perceber as sutilezas e não sutilezas da alma retratadas de forma dinâmica. O movimento das pessoas na tela pode ser enganador. A primeira vista parecem “pessoas normais”, mas quando chegamos mais perto “nada é normal”, pois de perto nem nós mesmos somos normais.

É por isso que gente é sempre tão interessante. É assunto que rende.

Volto semana que vem esperando ter conseguido ver o filme para poder falar sobre ele.

Beijo grande,

Drikka

criado por dri.mo    11:01 — Arquivado em: Sem categoria

18/1/09

BBBarbaridades

Eu nunca tinha assistido a um programa de abertura do Big Brother Brasil e confesso que nunca assisti a nenhum dos outros episódios, mas quis o destino (e o horário da minissérie) que eu fizesse isso pela primeira vez essa semana que passou.

 

Depois dessa experiência, estou pensando seriamente em ver o programa. Nunca tinha ouvido tantas besteiras num espaço de tempo tão curto. Se o nível intelectual de quem entrou é tão rasteiro quanto o de quem simplesmente deu entrevista para compor o primeiro programa, a minha diversão está garantida.

 

As pérolas eram incríveis. Coisas do tipo “nunca fiquei confinado num lugar fechado”, “quem não se balbucia num lugar desse?” ou então (para mim, a melhor por ser a mais filosófica) “minha meta é a ambição”. Essas foram as que consegui anotar, pois entre um surto de gargalhadas e outro, aconteceram mais.

 

Mas, como por trás do cômico sempre existe o trágico e vice-versa, se pensarmos em termos de língua, identidade cultural e pensamento crítico, a falta de intimidade com o vernáculo assusta.

 

Procurem no dicionário o significado da palavra “balbuciar” e me expliquem pelo amor de Deus o que quis dizer a criatura com a frase que construiu ou então me expliquem como é possível confinar alguém em espaço aberto. Muito provavelmente esses dois ouviram a palavra e acharam legal, porque realmente são palavras sonoras, mas não se preocuparam em saber o que significavam ao certo e na primeira oportunidade (Aliás, que grande oportunidade! MAMÃE, EU TÔ GLOBO!) mandaram a palavra nova. O pior, assim como eles, MUITA gente.

 

Eu observo ao longo dos dias que as pessoas estão perdendo a capacidade de interpretação e isso é muito sério. Há um tipo de analfabetismo que eu considero tão grave quanto qualquer outro, mas do qual poucas pessoas se dão conta. É o analfabetismo para ler situações. As pessoas veem (grafiazinha horrível) as coisas acontecendo e são incapazes de perceber o que se passa. Toda situação tem um pano de fundo e essas pessoas são incapazes de perceber esse pano de fundo ou seja, tudo é texto, mas não constroem nenhum contexto. Mais preocupante ainda, isso começa na infância.

 

Paulo Freire observa que para uma alfabetização perfeita, é preciso que a pessoa tenha antes da iniciação às letras, uma iniciação ao mundo. É preciso construir primeiro a sua leitura de mundo para depois ler as palavras.

 

Eu atribuo sinceramente essa perda progressiva da capacidade de ler o mundo ao uso excessivo de facilitadores eletrônicos. A mente humana tem sido pouco exigida para diversas tarefas. O menor cálculo é com a calculadora, a TV que é informação fácil e o atrativo do computador e dos games eletrônicos.
O tempo que passamos em frente a esses objetos é precioso e simplesmente o desperdiçamos, quando poderíamos estar aprendendo com a observação do que se passa fora das telas.

 

Não sou contra a tecnologia, eu mesma faço uso constante dela, inclusive para postar meus textos, mas procuro distribuir o meu tempo para não perder outras capacidades que considero importantes até mesmo para que possa fazer uso inteligente da tecnologia.

  

Por essa razão, eu costumava ser muito combatida entre os professores, quando fui professora. Eu sempre disse que não se deve deixar crianças, pelo menos até terminarem o primário, usar indiscriminadamente o computador, a calculadora, o vídeo game e que televisão mesmo que usada como material didático deve ter suas restrições também. Para bem operar essas máquinas é preciso aprender a usar a SUA máquina primeiro. Se logo a princípio mostrarmos a criança que ela pode sem esforço fazer as coisas, para quê ela vai se dar ao trabalho de aprender o processo?

 

Esse tempo que a criança usa brincando, fazendo perguntas  e mesmo “fazendo besteiras” é um tempo de experimentação muito importante e eu via, como ainda vejo, com muita pena, os pais alegarem que falta tempo e paciência para cuidarem dos filhos e esses eletrônicos ajudam a manter as pestinhas quietas. Mais tarde na escola,os resultados dessa “falta de tempo” aparecem. (Além disso, fica aqui uma pergunta: se não queriam ter trabalho ou se sabiam que não iria dar tempo, para quê tiveram um filho?)

 

Percebi dando aula que as pessoas tem dificuldade em entender qualquer explicação justamente pela falta da “leitura de mundo” da qual fala (com muita propriedade, diga-se de passagem) Paulo Freire, por isso ando lendo muito sobre linguagem para descobrir de que maneira essa lacuna deixada por essa leitura atrapalha a formação e apropriação devida da própria linguagem (e conseqüentemente do idioma) no ser humano. Isso é muito grave. Uma vez atrapalhado o processo de alfabetização, não se alcança a leitura crítica e sem leitura crítica, a cultura empobrece muito. E sem cultura…

 

Para dar continuidade ao raciocínio, aconselho a leitura de 1984 de George Orwell. Nele vemos uma sociedade imaginária da qual não estamos tão longe. O que para mim é apavorante. No livro, entre outros aspectos, o autor fala sobre a mudança e o empobrecimento do idioma nativo como uma das maneiras pelas quais o povo estava sendo dominado. Vale muito a pena ler.

 

Mas, como nem tudo é tristeza, parece que as pessoas estão acordando para a importância do ato de ler e cada vez mais se fala em livros. Só falta ajustarmos o processo de formação de novos leitores que anda falhando muito. Porém, onde há vida, há esperança.

Volto no final da semana e pode deixar que eu comentarei, se agüentar, o BBB.

Beijo grande,
Drikka

criado por dri.mo    13:58 — Arquivado em: Sem categoria

10/1/09

O valor das pequenas coisas.

Quando perguntadas sobre alegria, em geral as pessoas de imediato veiculam a alegria a conquistas de grande porte. Infelizmente essas pessoas (que não são poucas) desconhecem a alegria contida nos gestos que não envolvem nenhuma compra nem tampouco esforços quiméricos.

Hoje pela manhã recebi uma surpresa, razão pela qual escrevo agora esse texto. Eu tinha levantado tarde, devido a uma noite um tanto difícil e resolvi não sair. Fui de imediato conferir meus emails como sempre faço. Entre meus emails de hoje estava um com o assunto “Lembra? : - )”. Claro que curiosa como sou, foi o primeiro que abri. Ali estava a surpresa que iluminaria meu dia como um raio de sol.

Há cerca de cinco anos eu decidi presentear um amigo que fazia aniversário e viera passar as férias no Rio, com um desenho meu. Eu estava inspirada e resolvi fazer uma paisagem do Rio que eu amo: a Enseada de Botafogo. (O interessante é que nesse momento, depois de tanto tempo, eu percebi que a cena contém alguns erros, mas sejam bonzinhos comigo e chamem de “liberdade artística”.)

Voltando ao assunto… o que tem o desenho a ver com isso?

Anexado ao email que recebi veio a foto que usei para ilustrar o post. É o desenho que fiz há tanto tempo atrás corretamente emoldurado. (Até passe-partout, chiquérrimo!)

Foi decididamente uma surpresa e tanto!

Parece algo insignificante, mas o gesto de carinho é de uma grandeza imensa. Guardado por tanto tempo, mas não esquecido. A alegria que reside em receber o carinho das pessoas que amamos é imensa.

O interessante é que outro dia, não me lembro por qual razão, me veio a mente o dia em que eu entreguei o presente e esse dia pareceu perdido em algum canto da memória. Me perguntava o que teria sido feito dele depois de algumas mudanças de endereço. Hoje descobri que ele ainda vive e vai contar sua história em uma parede de Vancouver. Bem, eu acho que o dono ainda lembra desse dia.

Provocações a parte, a sensação de bem estar que esse amigo me proporcionou vai durar por muito tempo. A alegria de saber que habitamos o coração das pessoas é aquecedora e nos faz esquecer qualquer contratempo.

Espero que ao ler esse post, ele consiga ver o sorriso que invade meu rosto, quando me sinto muito feliz, pois já não nos vemos há bastante tempo.

Querido, muito obrigada. Espero também que minhas palavras coloquem em seu rosto um raio de sol na forma do seu belo sorriso.

Um beijo grande,

Nane

criado por dri.mo    21:58 — Arquivado em: Sem categoria

7/1/09

Sou ou não sou? Eis a questão.

 

Vá lá, me deem um crédito. Eu hoje me sinto mais bem humorada.

Estava agora de frente para o espelho do banheiro escovando os dentes (sim, se eu tivesse juízo estaria na cama para acordar cedo amanhã) e pensando sobre palavras.

Já dizia Vitor Hugo (ou disseram que ele disse): ”A palavra, como se sabe, é um ser vivo”. Eu também acho que seja, pois a palavra nasce, cresce, deriva e morre. Lógico que nem todas as palavras, mas uma grande parte delas. Isso é um processo que considero normal em uma língua viva.

Eu estava especialmente pensando na palavra COVARDE.

O dicionário Houaiss diz a respeito o verbete.

Covarde

Datação

sXIII cf. IVPM

 

Acepções
adjetivo e substantivo de dois gêneros
1    que ou quem age com temor diante de alguém ou de algo

; que ou quem não apresenta valentia
Ex.: <homem c.> <os c. sempre fogem das discussões>
 

 

Estava me perguntando o que representa realmente o covarde. A definição da palavra covarde é simples, mas por quais atos uma pessoa deve se sentir ou não covarde?

Em geral vemos pessoas com espantoso desassombro para atitudes radicais, mas com pouca postura diante de pontos cruciais da própria vida. Quando ela (a vida) os põe numa encruzilhada, eles se fecham na concha que construíram para se protegerem. Chegamos ao ponto! Enfrentar a vida exige muito, mas muito mais coragem que pular de bungee jump ou saltar de asa delta.

Foi o que passou pela minha cabeça durante a sessão de higiene bucal.

Tenho visto por aí tantas pessoas vivendo a margem de si mesmas, tentando mostrar coragem com atos vazios (como costumo dizer, pulando de ópio em ópio para sobreviver) ou se destruindo aos poucos, quando viverem suas vidas e assumirem o risco de serem felizes seriam atitudes que exigiriam muito mais coragem do que qualquer outra.

Ando muito preocupada com as gerações que estão chegando. Tenho uma sobrinha que foi criada “à nossa maneira”, mas que vai viver num mundo “à maneira dos outros”. Vejo isso pelos colegas dela. Como pode uma pessoa achar que criar um filho egoísta e muitas vezes mentiroso (justamente por não terem sido preparados para enfrentarem as consequências dos seus atos) ajudará a essa criatura a se manter de pé no mundo? Fico com pena dos desenganos que virão. Como sabiamente diz minha mãe: a vida mais bate do que beija.

Todos temos medo e muitas vezes sentimos vontade de pular a fase ou recuar, eu até acho normal, mas se isso não se torna uma postura crônica. Quando estamos sempre evitando resolver assuntos pendentes, sempre tentando enganar nossas próprias consciências e os outros, isso para mim já caracteriza covardia.

Lembro de há uns posts atrás ter falado que ainda quero muito um filho e é exatamente por essa razão que essas idéias andam fixas na minha mente. Me sinto responsável por nutrir meu possível filho com elementos que lhe deem força para uma visão real da vida e o impeçam de ser um covarde. Quero que ele tenha estrutura para enfrentar dificuldades sem depender de qualquer elemento externo. (Sim, eu me refiro ao vício ou a comportamentos de vício.)

Eu passei muitos anos vendo o que os pais estão fazendo com seus filhos e consequentemente vendo a sociedade caminhar para o caos em função da falta total de estrutura das pessoas que a formam.

Pode parecer exagero, mas um olhar mais apurado em volta vai perceber que muitas pessoas estão na vida, mas muito poucas efetivamente estão sabendo viver.

Beijo grande.

Volto semana que vem!

Drikka

criado por dri.mo    0:03 — Arquivado em: Sem categoria

1/1/09

Eu sei, mas não devia.

Há um texto de Marina Colasanti com o tema “Eu sei, mas não devia”. Para quem ainda não conhece segue o link http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp. Vale muito a pena ler.

Eu sei que não devia esperar que as pessoas reagissem da forma como eu reajo às coisas, mas tem dias em que isso é quase inevitável.

Reconheço em mim uma pessoa tola que sempre acredita no que os outros têm de melhor e que sinceramente nem sempre é mostrado. Tenho levado algumas pancadas nada elegantes por conta da credulidade e passei a me perguntar, porque eu consigo entender o lado de todo mundo e ninguém se preocupa em entender o meu.

Eu sou aquele tipo de pessoa que sempre acha um pano quente para colocar nas coisas, mas é levada a ponta de faca. Sempre escuto, mas nem sempre sou ouvida. Procuro não ver os defeitos das pessoas (é uma prova de fogo) mas sempre me apontam os meus.

É inevitável remexer o que passou no ano novo. Especialmente quando você tem uma expectativa por menor que seja de alguma coisa e o que acontece não tem nada a ver com o que fora previsto. Não que isto vá fazer meu 2009 péssimo. Isso nunca, mas com certeza está tornando o conteúdo desse post de um azedume insuportável. Nada simpático de minha parte, mas quando comecei o blog, disse claramente que escreveria com sinceridade sobre “as minhas verdades” e nesse momento estou um limão galego. (É… curta e grossa… Eu às vezes sou mesmo.)

Tudo isso porque eu sei que não devia esperar que se lembrassem de mim, mas esperei. Acho que me acostumei tanto a esperar que isso virou um mau hábito. O motivo da lembrança poderia até não ser o que gostaria, mas teria sido no mínimo demonstração de que se importam com meus sentimentos. Você pode não dar importância às coisas, mas se realmente conhece alguém, vai fazer porque para o outro importa e só.

É, minha cabeça girou até digerir isso e estou aqui 3:30 da manhã do dia 1 de janeiro jogando para fora minha decepção. Eu devo ser uma grande lâmpada na escuridão e a essa hora deve estar um sol de rachar.

Bem, mas como não quero começar o ano antipática, postei um sorriso de felicidade que vai sim, me acompanhar pelo resto do ano e por muitos anos.

Estamos tendo agora a chance de recomeçar e quem sabe eu não aprendo a não esperar demais das pessoas? Cada um dá o que tem, eu talvez esteja querendo que me dêem o que não existe.

Prometo um post mais divertido na próxima vez.

Um feliz 2009 para nós todos com as bênçãos do céu.

Obrigada por aturarem meu mau humor momentâneo.

Beijos,

Drikka

 PS: Tive que apagar e republicar. Ninguém conseguia ver.

criado por dri.mo    19:47 — Arquivado em: Sem categoria
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