Minha retina

Reflexões sobre as imagens que chegam aos meus olhos.

30/11/08

Vitrine humana

Eu procuro um amor que ainda não encontrei, diferente de todos que amei…
Frejat
Essa semana minha mãe voltou da rua com uma novidade. Um ex-namorado de quem ainda sou amiga vai ser papai. Fiquei sinceramente feliz por ele e ao mesmo tempo me senti estranha, porque de repente me veio aquele pensamento de que a mãe poderia ser eu. Mas foi mesmo só um pensamento porque, olhando de onde me encontro agora, não acho sinceramente que tivéssemos ficado muito tempo juntos, se tivéssemos casado. Acho isso justamente pelo que acabou por nos separar, objetivos e visões de vida diferentes.
Não sei bem porque, mas depois dele, eu desenvolvi (ou percebi que tinha) uma estranha mania de gostar de homens complicados. É lógico que isso traz muitas decepções, mas eu não estou chorando as mágoas, nem pedindo que alguém se candidate, estou apenas refletindo. É difícil falar sobre decepções afetivas sem que alguém te acuse de solteirona e outros pejorativos do gênero.
Eu mudei muito desde os vinte anos (Graças a Deus!). Não escondo de ninguém que nessa idade eu tinha realmente a ambição de casar e ter filhos, mas acho que nessa idade todo mundo é assim independente do sexo. É a fase "crescei e multiplicai-vos” e é interessante porque você acaba por selecionar seus namorados baseando-se na possibilidade de serem ou não bons maridos e pais. Depois é que percebemos que são funções independentes, mas isso não vem ao caso agora.
A evolução é uma das grandes lições das decepções. Aprendemos a observar e acabamos por reformular conceitos. É como se aos poucos refinássemos os critérios de busca em nosso site.
Eu acho que até uns vinte e oito anos, eu ainda conseguia me ver casada, mas foi mais ou menos nessa época que vi casamentos de amigos despencarem dos sonhos e vi meu sonho se desmanchar na realidade de mais uma decepção. A partir daí eu vi que o casamento não deve ser buscado, mas se você achar alguém com quem valha a pena dividir as coisas case-se!
É sério. Não acho que o casamento seja instituição falida. Eu acho que as relações humanas é que estão precisando de um upgrade para comportar o casamento. As dificuldades de relacionamento são impressionantes em qualquer tipo de ligação (pais com filhos, patrão com empregado, marido com mulher…).
Eu acho que tudo tem que funcionar num sistema de troca, onde ambos possam dar e receber. Vejo em pessoas que conheço extrema dificuldade em fazer isso. Normalmente recebem o que posso dar e não conseguem retribuir. Não que seja amiga delas para receber algo em troca, mas acho que para que minha força se mantenha plena até mesmo para elas, a energia delas tem que fluir e renovar a minha. Eu não devo ser a única com quem eles fazem isso e que percebe o que ocorre.
É muito desgastante tentar conviver com pessoas que estão sempre dentro de si mesmas e não participam do mundo exterior, muito pelo contrário, fogem dele o tempo todo. É interessante que conseguimos ler através do vidro que colocam entre elas e o mundo, mas não conseguimos fazer com que passem para o mesmo lado do vidro que estamos para que possamos ter uma ligação maior. Elas vêem, são vistas, são percebidas, mas acham que ninguém as conhece, ninguém percebe suas fraquezas e não vê suas dificuldades em serem elas mesmas. É como sair de óculos escuros quando se sente medo ou vergonha de alguma coisa. O mundo está muito assim, cada um vivendo atrás do seu vidro.
Penso que o casamento é feito de duas pessoas que conseguem viver do lado de cá do vidro, fora delas mesmas e em harmonia. Sabe aquele discurso do padre, na alegria e na tristeza? É isso mesmo. Co-habitar não é a minha praia, conviver sim. Conheço vários casais que dividem o mesmo teto e acham que estão casados. Fingem conviver,mas não saem da "segurança" de sua solidão. Não é o bastante para mim e acredito que para muitas outras pessoas também não.
Continuo a querer muito um filho, quero mesmo, mas casar hoje, só se encontrar quem viva do mesmo lado da vitrine que eu. Do contrário não vale a pena. É pura perda de energia. Eu já me desgastei muito e última tentativa não faz tanto tempo assim. Cansei duas vezes. Primeiro por tentar quebrar o vidro e depois que percebi que não adiantava, cansei de esperar que ele mesmo quebrasse.
Agora dá para compreender a frase de abertura do post que é uma música linda do Frejat: Segredos. (Tem no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=6zByb57Lr90). De todos os que passaram, quero um que venha fazer a diferença, um que me dê “a sorte de um amor tranqüilo". Mais uma vez acho que não só eu como muita gente tem esta mesma expectativa.
Encerro essa semana desejando aos que ainda estão presos dentro de si mesmos que alcancem a liberdade e aos que buscam o mesmo que eu que encontrem.
Beijos a todos.

criado por dri.mo    18:31 — Arquivado em: Sem categoria

6 Comentários »

  1. Adorei, adorei mesmo! estou no meio dessas pessoas que aos 37 anos, não me sinto desesperada,quero encontrar alguém sim, quando vier,que seja uma pessoa que pense como eu, em questão de casamento, ou relacionamento.

    As pessoas andam muito impacientes, na 1° briga, já querem separar e não pode ser assim. A 1° dificuldade, pronto,cada um pro seu lado.

    Mas acredito ainda que encontro alguém.

    Adorei o modo como explicou!

    Comentário por Alice — 30 30UTC novembro 30UTC 2008 @ 20:58

  2. tenho 36 anos e ainda tenho esperanças de encontrar um amor tranquilo.

    Comentário por Claudio — 1 01UTC dezembro 01UTC 2008 @ 14:06

  3. Muito boa reflexão :) Bem, eu também queria casar, ter filhos, tudo isso aos 24… aí… casei aos 24, arrumei dois filho (ou melhor, dois gatinhos rs) e miraculosamente sou parte de um dos poucos casais da minha geração que ainda sobrevive…. Enfim… acho que rola uma sorte de encotnrar alguém que te suporte e que vc aguente por tanto tempo sem muita crise hahahaha

    Comentário por B. — 2 02UTC dezembro 02UTC 2008 @ 17:58

  4. fala aí frozinha! ahhh, gostei do teu blog e do modo como voce escreve.

    está de parabens por se expor sem medo (eis a diferença entre o artista e os pobres mortais, o primeiro dá a cara pra bater!). eu tb gostaria de ter um blog, mas cadê?!

    adorei!
    um beijao, saúde e sorte sempre.
    fran

    Comentário por fran — 3 03UTC dezembro 03UTC 2008 @ 6:45

  5. Parabens Dri!!!!!!!!! Muito bom, bem elaborado, pura realidade, até acho que ficou um pouco que o casamento ainda é tudo, mas nao é nao. O que é bom é uma boa companhia isso que vale.
    beijos e continua escrevendo.

    Comentário por Ariel Moris — 8 08UTC dezembro 08UTC 2008 @ 8:34

  6. Não existe amor tranqüilo, e sim pessoas tranquilas. E para essas, o casamento é a melhor coisa que existe, deixa a vida muito mais sossegada e prazerosa…

    P.S.: A propósito de “tranqüilo”, amanhã acaba, né? Odeio essa reforma ortográfica irracional. Não tema, trema, continuarei usando-o sem discriminação!

    Comentário por Mang — 31 31UTC dezembro 31UTC 2008 @ 9:46

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