16/11/08
Bússola
Como todo mundo, ando tendo dias um pouco difíceis em minha vida. Nada que tire meu humor, apenas são aqueles dias que nos deixam cansados a ponto de perguntarmos o que estamos vivendo e como estamos vivendo.
O caminho que me levou a escrever sobre isso é um tanto tortuoso. Eu conversava com um amigo no MSN e ele me perguntou qual seria "a boa do final de semana". Eu disse que investia meu tempo em mudanças dentro da minha própria casa, uma faxina geral que era apenas o começo de um trabalho para uma mudança maior que pretendo. Ele disse que admirava essa minha “qualidade” de conseguir mudar e que conhecia alguém que precisava muito aprender como fazer o mesmo. Ele sabe que eu já fiz uma grande mudança uma vez, essa será apenas mais uma.
Certos assuntos parecem vir para que você possa reconstruir uma série de conceitos. Eu expliquei a ele que nem sempre fui assim e que aprendi a ser, pois quando a forma que vivemos se torna insuportável, mudar se torna uma palavra de ordem, um imperativo mesmo. Ou fazemos ou seremos condenados a viver no exílio de nós. A réplica foi interessante. Ele me disse que a pessoa que conhecia talvez tivesse que chegar ao ponto de infelicidade a que cheguei para perceber que precisava fazer alguma coisa. (Eu me perguntei se essa pessoa já não percebeu que precisa e não quer admitir, mas enfim…)
Eu sei que ele me levou a escrever um longo email (que não sei se foi lido). Nele recapitulei toda a minha dúvida ao saltar para o desconhecido. Isso me fez perceber que de novo é chegada a minha a hora de caminhar para novos rumos. (Aí, vou eu!)
O interessante é que quando entramos nessas fases começam a aparecer “sinais”. Seja uma leitura, um fato, um comentário de alguém, qualquer coisa se torna uma indicação de que esse ou aquele é o caminho a ser seguido. Que estes sinais existem, eu não tenho a menor dúvida. Eu mesma percebi que fui impulsionada a tomar uma decisão, quando não era capaz de fazer sozinha. O que me pergunto é: se estamos infelizes, porque relutamos tanto em seguir a nossa vontade? Sim, a pessoa conhecida do meu amigo ainda me acompanha nessas reflexões. Ela na verdade não me sai da cabeça. Fiquei pensando por que alguém opta pelo incômodo, se pode ser diferente.
O medo foi o principal fator que identifiquei. O medo é dono de uma criatividade negativa. Para cada saída que encontramos, ele cria uma resposta de invalidação. Ele é capaz de gerar milhares de desculpas, fazendo com que neguemos o tempo todo qualquer possibilidade. Tentar tem cinqüenta por cento de chance de acerto e erro. Se as chances são as mesmas, não há razão para não tentarmos. A grande questão reside em nos prepararmos para enfrentar as conseqüências. É uma Lei imutável da Física. Toda ação tem uma reação. O medo, portanto, não é da mudança. O medo é de não termos controle sobre as coisas que irão acontecer depois.
A máquina humana é perfeita, o ser humano não. Errar faz parte do processo. Quantas vezes mesmo racionalizando e nos cercando de todas as precauções, cometemos erros? Em nosso benefício temos o fato de que para todo erro existe a reparação.
Voltando a questão dos sinais, eu lembrei de um email que recebi de uma amiga essa semana. Ele falava sobre… MUDANÇA! Sim, isso mesmo. E a abertura desse email era uma frase muito interessante de Ralph Emerson.
“Ninguém pode voltar atrás e dar inicio a um novo começo; mas qualquer pessoa pode começar hoje a fazer um novo fim.”
Eu achei perfeita. Na maioria das vezes nos prendemos ao passado e nos culpamos por escolhas equivocadas com medo de mudar e errar de novo, e assim vamos seguindo infelizes e distantes, pois a "felicidade" dos outros passa a contrastar com o nosso estado de espírito. O que não paramos para pensar é que todos enfrentamos dificuldades em diferentes níveis e que a pessoa que te parece viver um conto de fadas pode somente ter aprendido com a própria dor a mudar o que era necessário e possível.
Me lembro de ter comentado no meu longo email (Ainda ele sim, desculpem!) que “qualidade de vida não se compra, se conquista”. Eu hoje realmente acredito nisso. Durante meu longo eclipse eu pude experimentar surtos de consumismo, mas o meu interior continuava o mesmo. Só juntei bagulho (E como! Tanto que passada a tempestade, ainda estou limpando as gavetas!). Eu oscilava entre dias bons e muitos dias ruins. Nesses dias ruins me enfiava num shopping e comprava alguma coisa que depois do estado de euforia, perdia completamente o significado. Um objeto preenche seus espaços externos, jamais os vazios interiores.
É curioso como uma pergunta simples me fez pensar tanto. Eu ando numa fase de muitos questionamentos. Ando remexendo meu passado de forma profunda e parte das minhas lembranças está fisicamente desaparecendo. A casa de minha avó, abrigo por mais de 25 anos foi vendida e estamos arrumando a mudança (olha ela aí de novo). Tivemos que nos desfazer de muitas coisas e para isso foi preciso abrir cada gaveta, ler cada papel e olhar cada retrato.
Nessas mexidas achamos uma bússola dourada que era do meu avô. (Ele eu não cheguei a conhecer, mas herdei alguns gostos. Coisas da fitinha do DNA.) E como eu falei que sempre quis ter uma bússola então minha madrinha me deu aquela. Por que comentei da bússola? Porque quando abri a caixinha dourada eu, mesmo inconscientemente, contextualizei o objeto pensando que elas não indicam o caminho que você deve seguir, elas indicam em que direção você deve ir para alcançar o caminho que deseja trilhar. A vontade é sempre sua, a escolha é sempre sua. Precisamos tratar com carinho nossa bússola interior para sabermos exatamente onde fica o que desejamos. É preciso saber o que desejamos para olhar a bússola e saber em que direção seguir. E na maioria das vezes é preciso mudar o ponto de observação para ver com clareza. Isso significa que pode ser necessária mais de uma mudança para atingirmos um determinado ponto. A primeira pode ser apenas uma troca de posição para que o ponto de observação nos permita ver melhor. Ou seja, se o primeiro resultado não é o esperado, não quer dizer que tenha dado errado.
Acho que ter sonhos e realizar coisas que tenham significado em nossa vida é o que traz o equilíbrio necessário. Tenho visto entre as pessoas que conheço (Isso já me valeu uma discussão acirrada na hora do almoço.) o dinheiro, o conforto material serem objetivo e isso me preocupa muito.
Não. Eu gosto de dinheiro. Não é porque eu não tenho que eu não gosto. Eu gosto e muito, só que considero o dinheiro meio e não fim. Ele traz possibilidades, mas em tempo algum trará equilíbrio interior ou afeto. E eu acho a infelicidade e a conseqüente solidão que vem dela um preço muito alto a ser pago. Infelizmente olhando o mundo de hoje, a maioria não pensa assim.
Bem, o que sei é que estou seguindo minha vida. Estou em processo ainda e espero jamais parar, porque a morte não existe exceto para quem não acompanha a dinâmica da vida. Esse sim está morto por ter interrompido ou abortado o processo. Tudo que é vivo muda e eu quero permanecer viva sempre.
Quanto à amiga do meu amigo (aqueeeeeela que gerou isso tudo) espero com sinceridade que ela consiga admitir que não é feliz e que precisa mudar. Que ela esteja consciente de que, como diz sabiamente minha mãe "dois proveitos não cabem num saco só" e que é preciso largar alguma coisa para com as mãos desocupadas pegarmos o que vem. Não há mudanças sem perdas, o que acontece é que muitas vezes (por medo) hiper valorizamos aquilo que temos que perder para ganhar outras coisas. Aí, começamos a não querer o novo, porque teremos que abrir mão do velho.
Que ela tenha disposição para caminhar, pois a estrada pode ser longa, mas encontrar-se consigo sendo novamente uma pessoa completa vale uma caminhada de qualquer extensão.
Aguardo os comentários e vou me preparar para semana que vem!
Beijocas,
Drikka
criado por dri.mo
16:13 — Arquivado em: 

Texto intenso e profundamente amedrontador para aqueles que ainda estão ocupados do mundo externo. Entrar em si, não é tarefa fácil. Conhecer quem és poderá trazer grandes surpresas, boas e más, “E, então. Quem sou eu?” Ou ainda “Quem somos nós”. Uns com tanta disponibilidade interna a mudanças e outros instalados no medo acolhedor que os permite pernanecer na “zona de conforto”. Querida Drikka, agradeço cada linha de reflexão, mas penso, que a amiga de seu amigo ainda não nasceu em si.
Um beijo com carinho!
Chicareli, M.
Comentário por Márcia Chicareli Costa — 16 16UTC novembro 16UTC 2008 @ 16:53
Drikka, adorei a idéia do seu blog! Sua apresentação foi super-simpática e esse texto da bússola é uma excelente reflexão mesmo. Ótima leitura pra quem tem dificuldade de fazer mudanças (como eu, por exemplo), mas que também já teve que fazer algumas pela vida afora…
Sucesso para o seu blog e pra sua mudança!
beijos,
Marcia
Comentário por Marcia Campello — 16 16UTC novembro 16UTC 2008 @ 19:26
Eita! Este post saiu de dentro do âmago!
Beijo,
Da Renata, que vive pensando nessas coisas.
Viva la vida!
Comentário por Renata Fern — 17 17UTC novembro 17UTC 2008 @ 8:23
Medo? Não está na retina, está é na mente da pessoinha e, por isso, não tem jeito: va amarelar por mudar ou por não mudar.
[ ]s do Freitas
Que concorda com o Otto Lara que dizia que toda mudança sempre é para melhor.
Comentário por Freitas — 17 17UTC novembro 17UTC 2008 @ 8:28
Oi Drikka!
Achei seu texto sensacional…. uma bela apresentação.
Realmente optar pelas mudanças dá muito trabalho e como mudar muitas vezes significa enfrentar o desconhecido, é mais fácil nos encolhermos na concha e deixarmos como está. Me vi refletida em algumas coisas q vc citou….sobre mudanças feitas, mudanças a fazer…..
Bem,estou aguardando pelo próximo post viu.
um bjao
Comentário por Lu Rodrigues — 17 17UTC novembro 17UTC 2008 @ 11:51
Oi Adriane,
Desde que eu li ‘Jogo de Damas’ vi que as tuas palavras falam muito com a minha alma!!!!!
Deve ser a afinidade que vem de longe, né?
Bjs.
Márcia
Comentário por Márcia Amorim — 17 17UTC novembro 17UTC 2008 @ 13:56
Lindo post, obrigado por compartilhar conosco o que passa pela sua inteligente cabecinha.
Não sei se aqui é o canal apropriado, mas aà vai:
“Tentar tem cinqüenta por cento de chance de acerto e erro. Se as chances são as mesmas, não há razão para não tentarmos.”
De fato, há duas possibilidades lógicas: acerto e erro. Por outro lado, estatisticamente as chances não são necessariamente as mesmas. Às vezes, a criatividade do medo tem razão. A questão é como vencer o medo quando o argumento dele é forte?
Vida longa aos blogs. Um beijo, querida.
Comentário por Eu — 18 18UTC novembro 18UTC 2008 @ 4:03
Meu conselho é MUDE, faça e aconteça, que vai dar tudo certo.!
Comentário por Daniela do Carmo — 18 18UTC novembro 18UTC 2008 @ 21:03
AÃ, menina! Que boa decisão essa de criar um blog para compartilhar com nós outros as suas emoções, dúvidas e certezas, pensamentos e humores…
Para começar, uso a frase do Lulu Santos “de que vale a vida sem aventura?”. Muitas mudanças vêm até nós e nos arrastaram sem que se consiga sair do redemoinho.
Deixam cicatrizes? Sim, algumas que a gente procura não mostrar e outras nos dão o maior orgulho, não é assim?
Aprendi a agradecer as mudanças nas minhas preces diárias. Mesmo as que chegam doendo.
Acho que as pessoas inteligentes mudam de tempos em tempos. Desde que eu a conheci, você já mudou bastante, e o resultado está cada vez melhor!!!
Acho que sua bússola é uma grande amiga que você tem.
Mas eu nem precisava comentar isso pois você demostrou que sabe disso tudo em seu texto. O que posso comentar é que desejo que o seu “começo de um novo fim” sejá ótimo, gratificante, proveitoso, completo, definitivo, e que a prepare para a próxima mudança e o próximo “começo de um novo fim”, e de outro, e de outro…
Grande abraço
Vagner
Comentário por Vagner — 22 22UTC novembro 22UTC 2008 @ 17:06
Drikka, adorei a frase do Emerson e a peguei emprestada. Gostei das suas reflexões também . Acho que mudamos o tempo todo, mas só percebemos as maiores mudanças, justamente porque são mais dolorosas, justamente porque quase sempre a vida tem que nos empurrar para elas, sem delicadeza, que é pra chamar a atenção. Bj.
Comentário por Jane — 24 24UTC novembro 24UTC 2008 @ 16:52